Obama alerta G20 para riscos de retirada de medidas de estímulo

Barack Obama (arquivo)
Image caption Para Obama, redução do déficit não deve colocar recuperação em risco

Em uma carta aos líderes do G20 (grupo que reúne países ricos e em desenvolvimento), o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, disse nesta sexta-feira que os governos não devem retirar seus programas de estímulo à economia muito rapidamente.

"Nós devemos ser flexíveis ao ajustar o ritmo da consolidação e aprender com os erros do passado, quando estímulos foram retirados muito rapidamente, o que resultou em renovadas dificuldades econômicas e recessão", escreveu Obama.

A mensagem foi enviada às vésperas da reunião dos líderes do G20, marcada para a próxima semana em Toronto, no Canadá, e é interpretada por analistas como um recado especialmente para as economias europeias, que vêm enfrentando crescente preocupação com a dívida pública.

"Nós precisamos nos comprometer com ajustes fiscais que estabilizem a relação entre dívida e PIB (Produto Interno Bruto) em níveis apropriados no médio prazo", disse Obama.

"Estou comprometido com o restabelecimento da sustentabilidade fiscal nos Estados Unidos e acredito que todos os países do G20 devem implementar planos confiáveis e favoráveis ao crescimento para restaurar a sustentabilidade de suas finanças públicas", afirmou o presidente.

"Mas é crucial que o momento e o ritmo da consolidação de cada economia se ajustem às necessidades da economia global, á demanda do setor privado e às circunstâncias nacionais", acrescentou.

"Nossa principal prioridade em Toronto deve ser resguardar e fortalecer a recuperação", completou Obama.

Déficit

A carta de Obama foi divulgada no mesmo dia de uma visita do diretor-gerente do FMI (Fundo Monetário Internacional), Dominique Strauss-Kahn, à Espanha, um dos países da zona do euro a lançar recentemente planos de austeridade para enfrentar problemas de déficit orçamentário.

Strauss-Kahn disse que a Espanha está no caminho certo para garantir a recuperação econômica. O plano lançado em maio pelo governo espanhol prevê reduzir o déficit dos atuais 11% do PIB para 6% em 2011.

O próprio governo americano também enfrenta o problema do déficit, que no ano fiscal de 2009 chegou a US$ 1,4 trilhão (cerca de R$ 2,5 trilhões), equivalente a quase 10% do PIB dos Estados Unidos, o maior percentual desde a Segunda Guerra Mundial.

No início do ano, Obama criou uma comissão bipartidária que tem como tarefa propor medidas para reduzir o déficit a 3% do PIB até 2015.

Recuperação

O temor dos Estados Unidos é o de que, na preocupação de reduzir o déficit, países europeus acabem colocando em risco a recuperação global.

"Nós trabalhamos muito duro para restaurar o crescimento, nós não podemos permitir que perca força agora", disse Obama.

"Isso significa que devemos reafirmar nosso propósito de garantir as políticas de apoio necessárias para manter o crescimento econômico forte", acrescentou.

"Na verdade, caso a confiança na força de nossa recuperação diminua, nós devemos estar preparados para responder de novo tão rapidamente e fortemente quanto seja necessário para impedir uma desaceleração da atividade econômica", afirmou.

Reunião

Os líderes do G20, entre eles Obama e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, voltam a se reunir na semana que vem, depois de encontros no ano passado em Pittsburgh e em Londres, em meio à crise econômica mundial.

Nas reuniões anteriores, os membros do grupo concordaram em buscar uma reforma do sistema financeiro internacional.

"Em Toronto, nos reuniremos em um período de renovados desafios à economia global", disse Obama na carta.

"Nós devemos completar o trabalho de recuperação e reforma financeira", afirmou o presidente americano.

Taxação e China

Um dos pontos em discussão na reunião de Toronto deve ser a proposta de taxação sobre os bancos, defendida pelos Estados Unidos e outras potências, mas rejeitada pelo Brasil e por várias economias emergentes.

Apesar de não citar nenhum país nominalmente, a carta de Obama também parece dar um recado à China, ao afirmar que "taxas de câmbio determinadas pelo mercado são essenciais para a vitalidade da economia global".

A China é criticada pelos Estados Unidos por manter sua moeda artificialmente desvalorizada, o que daria vantagens competitivas às suas indústrias.

"Os sinais que taxas de câmbio flexíveis enviam são necessários para apoiar uma economia global forte e equilibrada", disse Obama.

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