Patente tolice

Ivan Lessa em ilustração de Baptistão

"A Vila é uma cidade independente

Que tira samba

Mas não quer tirar patente…"

Estão lá em Palpite Infeliz estes versos antológicos de Noel. Imaginem se, não digo o Poeta da Vila, mas nós, brasileiros, mesmo em ano de chumbo, tivéssemos encasquetado de tirar patente de samba. Só ia dar besteira. Em vez de dar, como deu, em João Gilberto ou Zeca Pagodinho, ou seja, um presentaço – gol feito, para ficar numa analogia de tempos de Copa – ao mundo e quem quisesse cantar ou sambar conosco.

Mesma coisa o futebol (continuemos pensando em termos de Copa, já que a coisa está indo direitinho) de que não tiramos patente e nem nos passou pela cabeça essa bobagem. Em todo caso, como gostamos de dizer, “futebol é um esporte que os ingleses inventaram e nós, brasileiros, praticamos”.

Não estamos de todo errados. Até os ingleses, supostos inventores originais da prática em questão, e hiper-super-patriotas no que diz respeito ao que eles mesmo já batizaram de “nobre esporte bretão”, nunca pensaram, mesmo no auge do Império, em dele tirar patente.

Patentes tiraram o senhor Adams, aquele da goma de mascar, e os senhores Bill Gates e Steve Jobs, para passarmos a tempos mais informáticos.

Patente também tirou a Adidas da Jabulani, com uma mãozinha (pezinho?) da Fifa. Patente não pôde tirar, que eu saiba, o sul-africano que bolou a insuportável e estridente vuvuzela com suas três abomináveis notinhas. Bem feito.

Agora vêm os indianos e, com toda aquela tradição poética e filosófica, cismaram porque cismaram de tirar patente da ioga. Isso mesmo. Ioga. Essa disciplina mental e física que consiste de meditação, tanto no budismo quanto no hinduísmo, aliada a práticas de respiração e posturas e que passou a ser adotada pelo mundo inteiro. A ioga é uma forma de controle ou união entre mente e corpo. Textos seculares hindus abordam seus mais diversos aspectos, principalmente os Upanixades, o Bagavadguitá e, mais importante de todos, o Ioga Sutra.

Os praticantes avançados da ioga são chamados iogues. Para voltar ao samba, ainda na companhia de João Gilberto, em composição de sua lavra (lavra?), os iogues são lindos. Mas, e o complemento é meu, os iogues estão na bica de fazer uma baita besteira.

Altos, médios e baixinhos iogues ligados a um órgão governamental indiano começaram uma campanha para valer com o objetivo de proteger o rico legado medicinal e filosófico, somente a eles pertencente, segundo eles mesmos.

Com esse objetivo, já deram início à filmagem de centenas de asanas – são as posturas adotadas quando da prática da ioga – buscando assim transformar a transcendental prática num sistema rígido. Chamam a isso, os iogues não tão lindos do João, de “videógrafos”, e, com estes registros, pretendem dar prova irrefutável de que foram eles, os indianos, que lá chegaram primeiro.

As posições, ou posturas, ou ainda exercícios iogas, são basicamente 64 mil, segundo o swami (um professor dos principais conceitos hindus) Pragyamurti Saraswati, diretor há mais de 30 anos do Centro Ioga Satyamanda, aqui em Londres. O swami esse foi curto e grosso quando de uma consulta feito por jornais britânicos: “Parece-me ser uma total idiotice essa história.” E mais ele disse, bem mais, embora, em essência, é isso aí.

Se, na pior das hipóteses, a coisa der certo, sugiro tomarmos providências imediatas quanto à patenteação, primeiro, do samba, desde o discutido primeiro deles, ao menos gravado, o Pelo Telefone, até ao mais recente disco da Elba Ramalho. Em segundo lugar, pensar seriamente em patentear a capoeira, em qualquer de suas versões, baiana, nagô ou carioca. Não há nada pior do que ver um bailarino americano, ou de que nacionalidade for, jurar (de pés juntos?) estar praticando a “capoeira”.

A caipirinha, até onde entendo, não dá mais para pegarmos exclusividade mundial. Mas há, estou certo, coisas só nossas que não acabam mais. Vai ver até que “patenteáveis”. Acho.