Blues pour Les Bleus

Ivan Lessa em ilustração de Baptistão

Os franceses gostam de jazz, cinema, comer bem, fazer amor e teorizar. E, como todo mundo, para não serem muito originais, pois apreciam a picardia, o futebol também, que, numa voz de desprendimento, à melhor maneira do populacho, chamam de le foot, para mágoa dos defensores do idioma de Voltaire, Molière et caterva (que eles pronunciam “catervá”).

Comecemos com o jazz. Miles Davis chegou em Paris e abafou ainda mais que tantos outros heróis do idioma musical por excelência dos Estados Unidos. Chegou a gravar, de improviso, a trilha sonora de um filme do Louis Malle, Ascenseur Pour L'Echafaud, no auge da Nouvelle Vague, e era visto para cima e para baixo, na Rive Gauche, com sua namorada, Anouk Aimée, discutindo existencialismos e qual a boulangerie que servia o melhor pain aux amandes.

De enfiada, no parágrafo acima, uma pequena amostragem de como resumir um país e suas malemolências. É verdade, faltou le foot, que nem Miles nem Anouk, ao menos que se saiba, gostavam de acompanhar nas tribunas de honra de mãos dadas.

Embutido nas palavras do parágrafo que citei estava, no entanto, o conceito referido. Ocultei, como Zidane em forma ocultaria, Albert Camus, escritor ligado ao movimento existencialista e, ao que parece, excelente goleiro. Quando se atravessa o Canal da Mancha há que se rebolar, rebolar, rebolar e por para jambrar o distinto leitor.

Toda essa conversa fiada tem um único objetivo: evitar falar no vexame, no fiasco, na vergonha que foi o desempenho da seleção francesa nesta Copa que começa a esquentar. Les Bleus deveriam estar vermelhos de vergonha. Les Rouges, pois não?

Não é por nada que o presidente Nicolas Sarkozy deverá constituir uma comissão de inquérito, composta de cidadãos de estatura média para baixa (a vaidade é outro luxo gálico), afim de examinar os tristes acontecimentos que tanto os jogadores quanto o técnico infligiram à nação e ao mundo. A tristeza de ver Raymond Domenech recusando-se a estender a mão a Carlos Alberto Parreira, conforme mandam a praxe e o fair play, deverá, esperamos nós, brasileiros, constar da pauta, mesmo que momentaneamente preocupados com nosso (bom?) (mau?) (indiferente?) Dunga.

Talvez ele, Domenech, tenha descontado em nosso técnico (ora da África do Sul) as poucas e muito boas que ouviu do articulado atacante Nicolas Anelka. Falta de educação não é equacionável com as prendas francesas.

Esperemos que a desconstrução derridiana, ou seja, a crítica de pressupostos conceitos filosóficos, do desempenho da seleção francesa, seja a tônica dos trabalhos da suposta comissão sarkosyana e que eles obedeçam aos preceitos que sempre regeram o pensamento da nação a que muitos gostam de chamar “irmã” e dela morrem de inveja.

Sejamos justos: um país que deu ao mundo uma Edith Piaf mas também um Johnny Halliday, um Jean Renoir e um Roger Vadim, precisa, vez por outra, quando de um vexame, principalmente, dar uma examinada transcendental no próprio umbigo. É preciso obedecer aos preceitos que o filósofo francês, é claro, Alain Badiou, chama de “as tentações do sacrifício contido no Nada (le Néant).” Badiou argumenta que “fracassar está muito próximo de vencer”. Em outras palavras, aquilo que aprendemos em cartilha no colégio, “todo triunfo é um impostor”.

Como veem, é difícil não só jogar contra Les Bleus (eu evitaria até uma linha de passe com eles), como ganhar, perder ou empatar com eles. O melhor mesmo é esperar outras besteiras. Alemanha e Inglaterra já estão aí a se digladiar. O que é sempre divertido e nunca acaba em comissão de inquérito.