Uma eutanásia e um martini bem seco

Ivan Lessa em ilustração de Baptistão

Foi assunto de primeira página durante alguns dias. Depois, ao contrário de guerras e invasões, passou. O problema existe e continuará existindo. Eutanásia. Ou suicídio assistido. Uma cidadã que foi a julgamento acusada de tentativa de assassinato da filha foi absolvida e o departamento oficial (o CPS, equivalente à promotoria) que levou o caso aos tribunais ainda levou um sabão do ilustríssimo juiz. A mocinha da história sofria de encefalomielite miálgica. Não tinha vida, nada. Sobrava-lhe deixar o mundo com alguma dignidade.

Na mesma semana, outra mãe, que assistiu também à morte do filho, também portador de mal incurável, pegou prisão perpétua. Na verdade, não menos que 9 anos de cadeia. Um valor, dois pesos. Não faz sentido. Da pior maneira possível.

Um sítio informático está agora às turras com o Facebook por este auxiliar, entre aspas, as pessoas a porem um fim às suas vidas. O sítio é holandês e já admitiu que, se o levarem aos tribunais, irá parar com a assessoria técnica.

Esse o clima. Ideal para nele entrar Martin Amis, romancista britânico que corteja a controvérsia como quem manda beijinhos e faz olhinhos e “pisquitiu” para suas musas.

Amis é conhecido dos brasileiros. Está traduzido, vai às feiras literárias com sacola grande na mão, não deixa para amanhã a entrevista controversa (humm, isso está me lembrando alguém...) que pode dar hoje. Amis já foi acusado de islamofobia, quando, em diálogo com jornalista, alegou que as sociedades islâmicas eram menos “desenvolvidas” que as outras.

Amis passou pelo ritual espalhafatoso de um divórcio digno de qualquer Brangelina (é como batizaram aqui o casal Brad Pitt e Angelina Jolie). Amis abandonou sua agente literária de toda sua carreira até 1995, Pat Kavanagh, mulher de um (agora, claro) ex-grande amigo, o também escritor Julian Barnes.

Amis escreveu um romance sobre o Holocausto em que a ação toda se desenvolve ao contrário da usual, ou seja, os judeus morrem, se vestem, vão para casa e diminuindo de idade até nascerem. Escrever sobre o Holocausto é cultivar controvérsia. Não tem por onde. Além do mais, sejamos sinceros, a idéia não é das mais brilhantes nem chega a estabelecer qualquer tipo de argumentação, por mais primitiva que seja.

Diferentemente de J.D.Salinger, Amis não é avesso a uma entrevista. Muito pelo contrário.

Martin Amis está indo para as livrarias com livro novo para manhãs, tardes e noites de autógrafos. Seu tema? É controverso como uma entrevista de Caetano (esse o nome que eu queria lembrar) em dias que antecedem lançamento de show ou disco. A eutanásia é o tema. Nome do romance é ThePregnant Widow, que eu posso e traduzo por “A Viúva Grávida”.

O que se sabe da trama é o que Amis e seus agentes literários houveram por bem divulgar. A eutanásia, para repetir mais uma vez. Em uma calculada entrevista, Martin, para pegar mais intimidade com o baixinho (1m62), insistiu em repetir que logo o Reino Unido terá uma população só de velhos. A que ele se refere como “um tsunami prateado” (cor dos cabelos dos idosos, para os desatentos). E complementa suas tolices com o que ele gostaria de chamar de verdadeira “guerra civil” entre jovens e velharia.

No romance, Martin aponta a solução: uma cabine em cada esquina para a eutanásia desacompanhada. Assim como uma privada pública. Martin ainda dá uma colher de chá, ou melhor, uma taça de martini, que ajudaria na derradeira empreitada de quem já viveu demais e em excesso.

Sim, claro. Tem gente reclamando. Se tem até gente reclamando dos britânicos terem invadido o Iraque e estarem marcando presença no Afeganistão, por que não reclamar de um besteirol pretensioso desses? Martin, quando começou a receber o troco pelos muitos trocados que vêm aí, foi logo sendo menos controvertido e mais compenetrado. Como se dissesse, “Olhaí, gente, isso aí é sátira”. É comentário social, coisa e tal. Sempre uma boa saída. Nada mau para as vendas também,

Eu prefiro que meu martini seja um Gibson. Isto é, com uma cebolinha no lugar da azeitona. E um livro para ler enquanto sentado espero. Contanto que não seja de Martin Amis, o mais baiano dos escritores ingleses.