Futebol: uma caixinha de segredos?

Ivan Lessa em ilustração de Baptistão

Não adianta agora ficar se remoendo ou comemorando, com ou sem vuvuzelas, o resultado do Brasil contra a Holanda. O que passou é poeira, deixa de asneira – diz a canção popular.

O jornalismo hodierno, e até mesmo moderno, deve obedecer às mesmas regras que ditam o procedimento metrossexual globalizante que regem nossa vida nesta primeira década do século 21. Além do mais, sejamos justos, e falemos de leigo para leigo: eu digito estas linhas sem a menor ideia do que houve ou não houve na partida disputada na África do Sul. Olímpico que sou, sei apenas que o importante é competir.

O resultado, você aí, na quarta fila, que me lê no sábado 3 de julho, ou vá lá, domingo 4, está bem mais a par das jabulaniadas trocadas entre a seleção, que já foi canarinho, e aquela que também desfruta de um passado que nada tem a ver com sua cor de laranja à venda na beira de estrada: a Holanda.

O país das tulipas e dos tamanquinhos foi, no inesquecível (não, repensemos isso: esquecível, por demais esquecível) torneio mundial de 1974, o carrossel comandado, ou girado, pelo notável Johan Cruyff. Forçoso acrescentar que, na hora do pega para capar, na hora da decisão, os laranjinhas acabaram entregando a rapadura para os “alemão”. Assim foi e assim tem sido. Daí o motivo por que, mais acima, deixei entre parênteses que o melhor era esquecer aquele jogo.

Enchi, até onde pude, a linguiça que me coube na churrascaria da vida. Agora, não tenho mais como enganar. Sou jornalista, mas nem tanto. Tenho que falar sobre alguma coisa. E que seja sobre futebol. Não posso ficar feito um gordíssimo Maradona, velho e agitado, de banda no campo, fazendo embaixada. E fazendo muito mal, frise-se.

O que sugiro, e pretendo criar um grupo de pressão nesse sentido, é instaurar uma prática exótica, por mim bolada, ou jabulaniada, não só no Brasil, como no mundo inteiro, Reino Unido inclusive, já que aqui, por uns tempos, praticou-se o chamado, hoje com sorrisos irônicos, de “nobre esporte bretão”.

Inspirei-me no seguinte evento que, jornalista profissional que sou, captei em três coluninhas de um jornal oferecido gratuitamente no metrô: existe em Londres, em local secreto, uma instituição a que seus anônimos inventores batizaram de Secret Cinema, qual seja, traduzindo dentro das regras implacáveis do jornalismo altaneiro, “Cinema Secreto”.

A instituição, que já adquire as características de cult, tem um moto enigmático: Tell noone, que, novamente, dentro das disciplinas a que me impus, traduz-se por “Não diga a ninguém”. Não diga o quê? Não diga onde e o que filme vão passar.

Em geral é um clássico, ou de alta curtição. O local onde passam é mantido em segredo até o último instante. Quase sempre em lugares inesperados. Nunca um cinema, mesmo poeira, ou telona em praça pública. É no segundo andar de um pub ou até mesmo na casa de alguém, onde tudo é improvisado. Por aí. Até mesmo um pequeno show que antecede a exibição do filme em questão.

Na pequena notícia em que se detiveram meus olhos calejados de jornalista (sim, amigo, bom jornalista consegue calo nos olhos: são como medalhas por velhas batalhas travadas), a película em pauta (não repetir palavra, manda o figurino: filme, película, consultar dicionários, companheiros) era o Blade Runner, do Ridley Scott, que foi saudado com hips e hurrahs dignos de um Wayne Rooney de há dois anos. Até chegarem ao local de exibição, os sócios espectadores do club passam por uma série de pistas que dão a dica do que devem esperar. Faz parte do show.

Isso aí. Aí se deu, em pleno metrô, meu estalo de Vieira: pláquiti! fez ele. Por que não aplicar a mesma coisa ao futebol? Formar um clube, cobrar mensalidades altas, vestir camisas coloridas e aí então levar a turma, uma vez por mês ao menos, a um jogo especialmente convocado para a auspiciosa ocasião? Não precisaria, vou mais além e afirmo que não deveria, ser peleja entre profissionais. Tudo disputado por 22 desocupados catados na várzea mais próxima.

Ponho a mão no fogo (ui!) que seria tiro (bam!) e queda (plaft!). Sugiro ainda não darem o fato a saber ao Sepp Blatter e sua Fifa. Iriam cobrar todos direitos possíveis do mundo.

Cartas para esta redação.