Ainda alguns ossos da Copa

Ivan Lessa em ilustração de Baptistão

Lá estava num dos sítios da Globo e nós mesmos aqui demos em manchete: “Lula absolve Dunga”. Pronto, acabou. Isso é o que interessa. Agora vamos partir para o hexa de 2014. Talvez até com o Dunga à testa dos trabalhos.

As pessoas, uma vez absolvidas, tendem a se integrar de novo a uma sociedade que, não fosse pela generosidade e o tirocínio presidencial, cometeu a injustiça de as condenar. Para isso servem os presidentes, por isso foram eleitos para o supremo cargo: possuem aquele terceiro olho, o sentido apurado de, diante de fatos e dados, distinguir a verdade da ficção, o azeite do vinho. Dunga está absolvido.

O mesmo aconteceu, de forma totalmente diferente, ao técnico italiano Fabio Capello, sob cuja batuta tanto desafinaram os craques da seleção inglesa. Faturando US$ 9 milhões por ano, com um contrato ainda por expirar contendo cláusula generosíssima em caso de dispensa, Capello, ao contrário de qualquer outro técnico de qualquer outra seleção, nem pensou em se demitir.

A Federação Inglesa de Futebol é que teria de ponderar durante umas boas duas semanas até chegar a uma conclusão. Resolveram em dias. Capello fica. Passa umas boas férias na Suíça, depois volta para se preparar e à equipe para os próximos embates. Afinal, Capello ganha US$ 30 mil dólares por dia. E assim continuará a ganhar. A imprensa inglesa fez a exegese de outros técnicos, outros times. Com fotos de jornais. Nossos, argentinos. Deitou e rolou. Poupou Capello. Absolveu Capello.

Voltando ao Dunga. Demitiu-se logo após a derrota para a Holanda. Mesmo absolvido por Lula, sua renúncia vigorou. Do outro lado do continente, a figurinha difícil que é Maradona, depois da coça imposta pela brilhante Alemanha, também foi pelo figurino – e olha que ele não é homem de ir por figurino: pediu o boné de técnico. Talvez para júbilo de um Brasil impossível de ser absolvido em massa diante de sua torcida.

O país inteiro torceu contra a Argentina no jogo contra a Alemanha. Lembranças de algumas Copas Roca. Nada a ver com o brilho e o talento exibido por uma seleção – tedesca, não é assim que os jornalistas chamam? – que é, sem dúvida, a mais eficiente e emocionante desta Copa paupérrima em matéria de futebol. O povão gosta de dizer que futebol não tem nem lógica nem justiça. Pois tem sim. Aí estão os alemães prontos a dar o QED.

Resolvi acompanhar com ferocidade inaudita esta Copa. Vendo tudo, tudo lendo. Como qualquer idiota de cara pintada e vuvuzela ao lado, cheguei às minhas conclusões, praticando uma leitura moderna e prática dos eventos. Desta forma é que eu, como um presidente brasileiro, também absolvo Dunga. Só que vou mais além e dou as necessárias explicações.

Nós entramos pelos variados canos devido a uma questão de nomenclatura. Impossível, sejamos francos, uma seleção brasileira contendo jogadores com nomes como Daniel Alves, Felipe Melo, Gilberto Silva, Teresa de Sousa Campos, Júlio Baptista (com “p”, meu Senhor!), Luís Fabiano, Michel Bastos, Ricardo Monteiro de Barros Netto ou Thiago Silva. Isso não é seleção canarinho. Isso é coluna social dos anos 60.

Seleção Brasileira tem que ter Cabeção, Sete Dedos, Marisvaldo, Robismar, Claudemir e muitos com nome terminando em “inho” ou “ão”. Só Robinho tentou salvar o nome e a tradição da Pátria. Mais Robinhos, Maicons e Nilmares tivéssemos e, juro, o hexa seria nosso. Não tem por onde. Pensemos no hexa, preparemo-nos para o hepta. Robismarai-vos, brasileiros! Marisvaldai-vos! Claudemirai-vos!

Talvez por isso é que Lula tenha absolvido Dunga. Ele manteve a honra de nossa tradição pelo simples fato de ser conhecido como Dunga. Também poderia ter sido Atchim, Dengoso, qualquer um dos outros anões. Menos, é evidente, Branca de Neve ou Rainha Má.

O primeiro, frise-se, foi goleiro do São Cristóvão em 1948. Lula tivemos vários. Lembro de um Lula ponta do Palmeiras que, também nos anos 40, tinha um chutaço violentíssimo. Conhecedores mais velhos, feito eu, até discutem se era ou não um canhão tão poderoso quanto o de Quarentinha. Absolvo os dois, embora não seja presidente de nada. Absolvo Dunga e absolvo, juntos, Lula e Quarentinha, coitado, que esse nada fez de errado a não ser ter deixado de viver ao lado de nós, mortais alvi-negros.