De olho em concorrentes, Lula visa a abrir espaço para o Brasil na África subsaariana

Lula discursou na Cúpula Brasil - Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (Foto: Ricardo Stuckert/ Presidência da República)
Image caption Lula discursou na abertura da Cúpula Brasil - Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (Foto: Ricardo Stuckert / Presidência da República)

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva faz nesta segunda-feira a primeira visita de um chefe de Estado brasileiro à Guiné Equatorial, em uma tentativa de abrir novos espaços para o Brasil no continente africano, de olho no avanço de outros emergentes - como a China - na África.

Lula, que chegou no fim da tarde do domingo à capital, Malabo, onde passará menos de 24 horas, será recebido oficialmente pelo presidente Teodoro Obiang Nguema, que chegou ao poder por meio de um golpe de Estado há 30 anos e nele permaneceu sobrevivendo a outras tentativas de golpes. Ele tem sido reeleito desde então. Nas últimas eleições, no ano passado, Teodoro Obiang Nguema anunciou a vitória com 97% dos votos. A Guiné Equatorial, o primeiro país da África subsaariana que o presidente visita nesta viagem, saltou aos olhos da comunidade internacional a partir de meados dos anos 1990 com a descoberta de grandes reservas de petróleo, produto que compõe 95% das exportações do país. O país é hoje o quarto maior exportador de petróleo da África. Segundo dados do governo britânico, o país passou de uma produção inicial de 17 mil barris diários de petróleo, em 1996, para cerca de 400 mil barris de petróleo em menos de uma década, impulsionando um dos mais altos níveis de crescimento em todo o continente africano no início do milênio. Ignorando as denúncias de restrições à liberdade de expressão e de repressão política, países como a China e a Nigéria anunciaram maciços investimentos na economia local, não só em petróleo como em gás natural. Desde então, o governo do presidente Teodoro Obiang Nguema tem se reaproximado também da França e da Espanha, países da qual a Guiné herdou suas duas línguas oficiais, e mesmo os Estados Unidos reabriram em 2003 uma representação diplomática em Malabo após oito anos de ausência. “A gente tem de ser pragmático”, disse em Malabo o diretor do Departamento de Promoção Comercial do Itamaraty, Norton Rapesta, quando jornalistas perguntaram sobre o dilema de negociar com países com problemáticos do ponto de vista de respeito à democracia e aos direitos humanos. “Outros países que são os grandes defensores da democracia do mundo, e fazem guerras em defesa da democracia, negociam e fazem investimentos em países que não têm o mesmo padrão desejável de democracia. O fato de você se aproximar trazendo o exemplo brasileiro, isso pode ser no plano político uma contribuição”, argumentou. “Se fosse assim, no tempo que a gente tinha ditadura no Brasil, ninguém ia fazer negócio? A França com o (ex-presidente socialista François) Miterrand se afastou do Brasil por conta dos direitos humanos e perdeu espaço, agora está se reaproximando.” <b>Interesses</b> O embaixador da área comercial disse que os interesses do Brasil na Guiné Equatorial não visam à exploração petroleira, e sim à venda de máquinas, equipamentos mecânicos e outros produtos de mais alto valor agregado. Não há, por exemplo, representantes da Petrobras na delegação de cerca de 30 empresários que acompanham o presidente Lula e que participarão de um evento comercial aqui em Malabo em paralelo à visita oficial. A delegação empresarial é marcadamente focada em infraestrutura, de olho na construção de estradas e de uma seção mais moderna da capital, Malabo 2, ao lado da antiga Malabo, e no levantamento de uma infraestrutura para a Copa da África de 2012. Para ganhar espaço nos negócios aqui, o Brasil tenta convencer o seu público-alvo de que o produto nacional se adapta melhor às condições do clima e às necessidades locais que os produtos de países concorrentes. Como em outras partes da África, o Brasil encontra na Guiné Equatorial uma preponderância chinesa na área de infraestrutura. No entanto, a China é criticada por gerar empregos através dos seus investimentos mas importar a mão-de-obra do próprio país. Já as companhias brasileiras, argumentou Rapesta, têm o diferencial de trazer investimentos, se instalar no país e capacitar a mão-de-obra. Na parte de serviços, Rapesta crê que o país está “pagando pelo sucesso” econômico brasileiro. Ele disse que as empresas brasileiras estão tão repletas de demandas dentro do próprio território nacional que já começam a ter dificuldades de oferecer seus serviços no exterior. O comércio brasileiro com a Guiné Equatorial somou US$ 302 milhões (cerca de R$ 520 milhões) no ano passado, sendo que apenas US$ 45 milhões deste total se referem às vendas brasileiras. As exportações brasileiras são sobretudo de carne (US$ 15 milhões ou um terço da pauta de produtos em 2009), caldeiras, máquinas, automóveis (na qual se incluem as máquinas agrícolas) e laticínios. Já as compras brasileiras são compostas majoritariamente de petróleo e produtos derivados. Rapesta afirmou que o Brasil tem interesse em desenvolver saídas logísticas para a África subsaariana, com a qual o comércio é pequeno e, via de regra, um navio que vem carregado de exportações volta vazio. Em muitos casos a embarcação tem de ir por portos europeus, como Roterdã, na Holanda. E em outras situações, para chegar à África do Sul, uma embarcação tem de passar antes por Cingapura e Dubai. “O problema de África é a falta de logística, porque as principais linhas estão nas mãos dos países europeus”, diz Rapesto. De Malabo, o presidente Lula segue para o Quênia, depois Tanzânia, Zâmbia e África do Sul. A delegação empresarial segue daqui acompanhando o presidente. Na África do Sul, Lula encerra sua agenda assistindo à final da Copa do Mundo, em Johanesburgo, no dia 11.

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