Países precisam fazer ajuste fiscal sem afetar crescimento, diz FMI

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Image caption Para FMI, crescimento mundial deve ser 0,4% maior do que o calculado em abril

As economias avançadas precisam enfrentar o desafio de fazer um ajuste fiscal, necessário para restaurar a confiança dos consumidores e dos mercados, sem que isso afete a recuperação do crescimento mundial, diz o FMI (Fundo Monetário Internacional).

Na revisão do relatório World Economic Outlook (Perspectivas da Economia Mundial), publicada nesta quinta-feira, o Fundo projeta um crescimento mundial de 4,6% para este ano, aumento de 0,4 ponto percentual em relação à versão anterior do documento, publicada em abril.

Para as economias avançadas, a projeção de crescimento é de 2,6% em 2010, aumento de 0,3 ponto percentual em relação à previsão de abril. Em relação a 2011, as previsões se mantiveram inalteradas, de avanço de 4,3% no PIB (Produto Interno Bruto) global e de 2,4% nas economias avançadas.

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No entanto, o relatório afirma que essas projeções dependem da implementação de políticas para restaurar a confiança e a estabilidade, “particularmente na zona do euro”.

“De maneira mais geral, os esforços nas economias avançadas devem ser concentrados em uma consolidação fiscal que inspire confiança, principalmente por meio de medidas que reforcem as perspectivas de crescimento no médio prazo, como reformas nos sistemas tributários”, diz o texto.

Na revisão de seu relatório Global Financial Stability Report (Relatório sobre a Estabilidade Financeira Global), também divulgada nesta quinta-feira, o FMI afirma que, apesar de uma melhora geral nas condições econômicas, o avanço rumo à estabilidade financeira mundial sofreu um retrocesso por causa da materialização dos riscos soberanos (risco de um governo não honrar suas dívidas) em alguns países da zona do euro.

"Os riscos soberanos em algumas partes da zona do euro se materializaram e se estenderam para o setor financeiro da região, com a ameaça de propagar-se para outras regiões e de reativar uma interação negativa com a economia", diz o documento.

Turbulência financeira

Os países da zona do euro, em particular Grécia, Espanha, Portugal e Irlanda, enfrentam uma crise de confiança em suas economias, provocada principalmente por grandes déficits orçamentários e dívida pública, e muitos já vem adotando medidas de austeridade para colocar as contas em ordem.

No entanto, há o temor de que ajustes fiscais muito drásticos e a retirada prematura das medidas de estímulo adotadas durante o auge da crise econômica mundial possam colocar em risco a recuperação global e mergulhar o mundo em uma nova recessão.

Segundo o FMI, apesar de o crescimento mundial no primeiro trimestre deste ano ter sido “maior do que o esperado” no relatório anterior, “os riscos aumentaram drasticamente em meio a uma renovada turbulência financeira”.

“As perspectivas de crescimento nas economias avançadas podem ser afetadas caso uma consolidação fiscal excessivamente severa ou mal-planejada prejudique a demanda interna, que ainda se mantém fraca”, diz a revisão do World Economic Outlook.

O Fundo manteve sua previsão de crescimento para a zona do euro em 1% em 2010. Para 2011, a projeção foi revisada para baixo, em 1,3%, queda de 0,2 ponto percentual em relação ao relatório de abril.

Déficit

O Fundo diz que o comprometimento com “estratégias ambiciosas” para reduzir os déficits fiscais no curto e no médio prazo são essenciais. Afirma, porém, que no curto prazo “a extensão e o tipo de ajuste fiscal dependem das circunstâncias de cada país”.

“A maioria das economias avançadas não deve adotar medidas mais restritivas antes de 2011, porque isso poderia colocar em risco a incipiente recuperação. Mas elas também não devem reforçar as medidas de estímulo”, diz o documento.

O debate entre ajuste fiscal e crescimento marcou a última reunião de líderes do G20, grupo das principais economias avançadas e em desenvolvimento, realizada no fim de junho em Toronto, no Canadá.

No documento final da cúpula, as economias avançadas se comprometeram em reduzir seus déficits em pelo menos a metade até 2013 e em estabilizar ou reduzir a relação entre dívida e PIB até 2016.

Os países do G20 concordaram, porém, que os planos de consolidação fiscal fossem diferenciads de acordo com as circunstâncias de cada país e focados em medidas para manter o crescimento.

Reforma

O FMI afirma que a recente turbulência financeira “salienta a necessidade urgente de reformar os sistemas financeiros e restaurar a saúde dos sistemas bancários”.

De acordo com o Fundo, é necessário reforçar a transparência do sistema financeiro e reduzir a “persistente incerteza” em relação ao ambiente regulatório.

“Planos e prazos consistentes e confiáveis para implementar a reforma regulatória e reduzir a incerteza precisam ser adotados”, diz o FMI.

Segundo o documento, incertezas em relação a reformas regulatórias e seu potencial impacto na capacidade de empréstimo dos bancos também colocam em risco o crescimento mundial.

Estados Unidos

O relatório aponta ainda o risco representado pela possibilidade de que o mercado imobiliário dos Estados Unidos volte a enfrentar problemas.

O Fundo revisou para cima suas projeções de crescimento para a economia americana tanto em 2010 quanto em 2011.

As previsões são de avanço de 3,3% neste ano e 2,9% no ano que vem, aumento de 0,2 e 0,3 ponto percentual, respectivamente, em relação ao relatório de abril.

O Fundo afirma também que reformas estruturais e o reequilíbrio da demanda global são essenciais para dar suporte ao crescimento futuro.

“Em economias com superávits externos excessivos, a transição para fontes de demanda domésticas deve continuar, apoiada por medidas estruturais para reformar as redes de proteção social e melhorar a produtividade no setor de serviços e, em vários casos, por taxas de câmbio mais flexíveis”, diz o texto.

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