Bravo Stefano

Lucas Mendes em ilustração de Baptistão.

Louro, traços finos, sorriso fácil, vivo, meio debochado, flamenguista, craque no meio do campo, Stefano Rozental tem pinta de anjo malandro.

E como aprontava. Quando tinha três anos ofereceu um prato de maçãs com amêndoas para a mãe: olha que gostoso! Tinha feito xixi no prato. A avó Acirema dava aulas de canto em Goiânia e, um dia, Stefano regou as alunas. Era só água, mas as goianas não agradeceram. O gato da família só escapou do congelamento porque o rabo ficou pra fora da geladeira.

Aos 11 anos, Stefano põe a boca no mundo da ópera. Estuda piano desde os 3 anos, canta e está no coro de crianças da Metropolitan Opera, o MET, onde começou, aos sete. Já traçou The Queen of Spades, War and Peace, La Bohème, Manon Lescaut, Cavalleria Rusticana e Carmen.

Fora da temporada do MET, nesta época do ano, Stefano canta com a Fundação Martina Arroyo. Está na segunda temporada e neste sábado sola em A Flauta Mágica.

Música está no DNA desta família de Goiás. O avô era juiz e músico, a avó Acirema tem um teatro caseiro e dá aulas em casa de ópera para amigos regadas a vinho.

O irmão mais velho de Stefano, Adriano, começou a tomar aulas de violino aos três anos com a irmã de Yo Yo Ma pelo mesmo método ensinado ao genial violoncelista pelo pai.

De onde vem esta musicalidade goiana? “Vem de franceses de Goiás Velho”, explica Acirema, cujo nome, America ao contrario, foi inspirado numa mulher lindíssima que o pai conheceu em Goiânia. Nada a ver com música.

Adriana, mãe de Stefano e Adriano, estudou biologia e física, fez mestrado, doutorado e hoje dá aulas de biologia, neurologia e desordem de comunicação em Nova York, mas ela passa mais tempo nutrindo os talentos musicais dos filhos. Leva, espera e busca. Os livros e o laptop estão no carro.

Aos 11 anos é impossível dizer se Stefano vai ser um grande cantor. Na idade dele ninguém dava nada por Pavarotti, que vivia numa casa modesta com os pais e a irmã espremidos em dois quartos. A influência musical veio dos discos do pai com quem ele cantava no coro da igreja. Teve poucas aulas e o interesse pelo futebol era muito maior do que pela música. Quase quase foi profissional, mas foi salvo pela mãe que conseguiu convencê-lo a ser professor. Já era adulto quando o vozeirão saiu lá de dentro .

Plácido Domingo nasceu em berço musical. Os pais, Plácido e Dona Pepita, eram estrelas de operetas espanholas. Nasceu afinado.

José Carreras cantava todo o tempo para a família e para as freguesas da mãe no salão de beleza. Quando diziam que estava enchendo o saco, aos seis anos, se trancava no banheiro e solava.

Se influência de família bastasse eu teria sido musico. Meu avô materno, Onofre, homem doce, juiz, Procurador Geral do Estado no governo Juscelino, professor e desembargador, foi flagrado várias vezes de joelhos na frente do enorme alto falante ouvindo Beethoven. Vivi com ele dois anos e tome Beethoven com uísque Drury's. É impossível não gostar do compositor, mas ele merecia acompanhamento melhor. Naquela época, o Judiciário mineiro ainda não bebia escocês.

O querido velho conseguiu batizar um filho de Beethoven. Tio adorável, mas dissonante. Não sabia a escala musical ou a diferença entre Mozart e Beethoven. Quando quis batizar o filho seguinte de Mozart, minha avó Maria tirou a batuta: se quisesse ter uma orquestra sinfônica, que parisse a dele.

Em vez de Mozart veio Alberto Magno, mas o vovô pariu a sinfônica de Belo Horizonte. A história talvez seja exagerada, como quase tudo em Minas, mas tem um tom de verdade. Nos, netos, borboletados e aveludados, detestávamos os concertos obrigatórios no auditório do Instituto de Educação. A sinfônica não tinha a própria sala e nós, nenhum talento.

Nem Beethoven, nem qualquer neto ou bisneto emplacaram na música. DNA não basta. É preciso uma mãe Adriana. Ou talento.

Na audição para a Metropolitan Opera, Stefano cantou Happy Birthday to You e foi contratado na hora, mas com a maestra Elena Doria não fazia xixi fora do penico. Bocejou? Olhou o relógio? Coçou durante o ensaio? Castigo. A velha mestra de 84 anos foi afastada este ano do MET pela rigidez, mas escolheu um pequeno grupo de alunos especiais, entre eles Stefano, para continuar sob a batuta dela.

Daqui a um ou dois anos a voz dele vai mudar de tom e bye, bye coro do Metropolitan. No piano, na ópera ou no meio do campo, pode apostar no futuro do Bravo Stefano.