Crime cai, polícia escorrega

Ivan Lessa em ilustração de Baptistão

O crime continua a cair no Reino Unido. Pela parte que me toca, endosso o resultado das pesquisas feitas pela honrada instituição que leva o nome de British Crime Survey, ou seja, a Pesquisa de Crimes na Grã-Bretanha.

Em mais de três décadas, não cometi qualquer espécie de ilegalidade ou delito. Respeitei, que eu me lembre, as leis vigentes na Inglaterra e no País de Gales com uma lisura que só vem a honrar minha origem e nacionalidade.

Apesar da BCS, como é chamada nos meios criminais, ter estudado apenas os números relativos aos dois países citados, minha ficha continua limpíssima tanto num quanto noutro.

Não posso afirmar que na Escócia ou na Irlanda do Norte, neste Reino Unido, meu nome seja sinônimo de absoluta honestidade. É possível – tudo é possível neste mundo de Deus – que haja por lá um xará fazendo coisas que não deveria.

No Brasil e em Portugal, já dei com xarás. Até onde sei, e eu, como a BCS, fiz minha modesta pesquisa, são todos homens de bem.

Aliás são dois apenas. Um de cada lado do Atlântico, sendo que o português, além de pronunciar o primeiro nome como paroxítona, grafa o sobrenome com cedilha.

Divago, como é próprio daqueles que observam as leis do país que habitam. Faz parte das vidas que seguem à risca os códigos penais. Voltemos, como dizem que voltam os assassinos, ao local do crime.

O crime está caindo pelas bandas de cá. Não digo caindo “assustadoramente”, pois não há qualquer motivo para temer a queda da ilegalidade. Muito pelo contrário.

Digo e repito: além de não ter violado qualquer lei, não fui vítima de qualquer infração. Nem assalto à mão armada, nem furto, nem roubo. Talvez seja o respeito que minha presença impõe. Talvez seja mera sorte. O mais provável, e o que os meios de divulgação insistem em divulgar, é apenas isso: está em declínio o crime. Os infratores estão noutra. E isso se deve, sem dúvida, aos métodos adotados pela polícia local.

Cito alguns dados divulgados: as ofensas criminosas, de uma forma geral, caíram 9% nos últimos 12 meses, ou seja, 9,6 milhões de registros ou queixas criminais. Isso representa o mais baixo nível (no mais alto sentido) atingido desde que a instituição foi formada em 1982. Infelizmente, os crimes violentos caíram a “insignificante” – e as aspas são da BCS – percentagem de apenas 1%. É pouquíssimo, mas já é alguma coisa.

A instituição que examina a situação do crime nestas terras prossegue divulgando outras estatísticas, quase todas encorajadoras. Esquece-se, no entanto, segundo meu viés pessimista, de um pequeno, porém importante, detalhe: pode vir embutido na auspiciosa notícia o fato de que, desta forma, a polícia pode ficar folgazã, cheia de si mesma, e deixar de aprimorar seu nível qualitativo.

O exercício de fazer com que se cumpram as leis da terra exige, tal como a liberdade, não só a eterna vigilância como também um aperfeiçoamento constante.

Eu mato, segundo a lei, a cobra, e mostro, honestamente, o pau.

Vejam o caso envolvendo policiais que ocupou um respeitável espaço na imprensa inglesa. Diz respeito às repetidas tentativas de dois policiais matarem à bala uma vaca (louca, tudo indica) em Stockton-on-Tees, no norte da Inglaterra, em agosto do ano passado.

O citado animal irracional tomado de inexplicável acesso de fúria investiu contra uma senhora e seu bebê corajosamente defendidos por um policial. Não havia outro remédio a não ser abater a vaca. É a vida.

Outro policial juntou-se ao companheiro para enfrentarem o animal enfurecido. Uma vez armados, chegaram a disparar 12 tiros contra o bicho doido. Oito vezes com um rifle e quatro com uma espingarda de caça.

O fato, que a polícia local insiste, não sem razão, em chamar de “única solução humanitária cabível ” para o violento incidente, ocorreu no pátio de um colégio. Ao que parece, não havia olhos inocentes presenciando a cena terrível.

Os policiais alegaram que o abater da perigosa vaca louca levou tanto tempo devido a diversos fatores, tais como a velocidade do vento, a distância e os tipos das armas utilizadas. Um perito local em comportamento animal, Dr. Roger Mugford, afirma que tudo não passou de “mera incompetência policial”.

E aí reside, algo paradoxal, o ponto principal e único de minha humilde argumentação: com a queda do crime, não se correrá também o perigo de que a polícia perca alguma parte, mesmo mínima, de sua eficiência?

É duro admitir, mas há – como sempre – que se optar pela honestidade: tem que haver crime para que a polícia exercite sua capacidade de policiamento impecável.