Soldados dos EUA se frustram por não poder ir à guerra

Soldado americano em combate
Image caption Soldados se comparam a jogadores de futebol no banco de reservas

Para cada soldado ou fuzileiro naval americano arriscando sua vida em países estrangeiros, três ficam nos Estados Unidos em funções de apoio às missões.

Mas ao invés de suspirar aliviados por poderem permanecer em seu país em segurança, muitos sentem frustração, ressentimento e até vergonha por jamais terem posto os pés em um campo de batalha.

Durante a Guerra do Vietnã, evitar o serviço militar não era incomum. Muitos jovens inventavam ferimentos, casavam-se cedo ou se mudavam para o Canadá para evitar a luta e possível morte no sangrento conflito.

Hoje, o serviço é voluntário e os que se inscrevem estão preparados para seguir o seu destino. Portanto, é difícil se conformar quando ele não se concretiza.

O ex-fuzileiro naval Jay Agg decidiu entrar para o Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos após os ataques à Torres Gêmeas, em Nova York, em 11 de setembro de 2001.

Ele sabia que corria o risco de sofrer ferimentos graves, perder um membro, até morrer.

Ainda assim, para a surpresa de muitos civis, quando seu tempo de serviço chegou ao fim, em 2006, ele ficou profundamente desapontado por jamais ter servido em uma zona de combate.

Muitos nas Forças Armadas são da opinião de que poucos civis compreendem a atração que soldados sentem por servir em um campo de batalha.

"A média da população não se ofereceria para o serviço militar voluntariamente, então não entende o que motiva uma pessoa a lutar em uma zona de guerra", disse Agg, que hoje trabalha como gerente de comunicações para o grupo de veteranos Amvets.

Instinto de Luta

Em quase uma década de batalhas que tiraram as vidas de cerca de 5,5 mil soldados americanos no Iraque e Afeganistão, uma grande proporção dos homens e mulheres que integram o Exército e Marinha americanos foi enviada às zonas de combate.

Para muitos, no entanto, ficar para trás é difícil. O instinto de lutar é poderoso, alimentado em parte pela camaradagem e em parte pelo treinamento.

Alguns comparam a experiência à de jogadores de futebol que treinam duro e aperfeiçoam suas jogadas mas nunca entram em campo para jogar. A irritação é palpável.

MAs é difícil para os que ficam explicar a amigos e conhecidos por que permanecer nos Estados Unidos é tão ruim.

Itzak Lefler, que entrou para o Corpo de Fuzileiros após se terminar o curso secundário em 2001, conta que quando as pessoas ficam sabendo que ele foi fuzileiro, quase sempre lhe perguntam se ele matou alguém.

É uma pergunta difícil para qualquer militar, mesmo aqueles que nunca combateram.

"É sempre difícil para mim contar às pessoas que não fui enviado (ao campo de batalha)", diz Lefler.

Segundo ele, a conversa invariavelmente termina com a pergunta: "O que você fez, então?". Como se um militar que não pisa na zona de guerra não tivesse qualquer propósito.

Image caption Civis têm dificuldade de entender razões de frustração, dizem soldados

Lefler tem cidadania americana e israelense. E conta que, por ter acesso a documentos confidenciais, seus comandantes lhe pediram que desistisse da cidadania israelense.

Ele não quis desistir do passaporte israelense, mas nunca deixou o solo americano.

Hoje, sem ter combatido, Lefler tem a sensação de que seus oito anos de serviço - e o grande investimento das Forças Armadas em seu treinamento - foram desperdiçados.

"Não é que eu estivesse sedento de sangue ou quisesse ferir as pessoas", ele explica. "É mais pelo sentimento de camaradagem, de lutar ao lado dos meus amigos, viajar para países diferentes e cumprir minhas tarefas como fuzileiro naval".