Cães imundos, véus limpos, piscina escura

Ivan Lessa em ilustração de Baptistão

Vamos começar os trabalhos dando uma chegadinha ao outro lado do Canal da Mancha. Isso. A França. Cheiinha de franceses. Nicolas Sarkozy e seus apuros com as contribuições para sua campanha eleitoral. Isso é interessante. Como tanta coisa no país que os ingleses, algo entre dentes, chamam de “amigo”.

Mais do que isso, no entanto, é o fato aqui mesmo neste aprazível sítio sucintamente noticiado na semana passada. Que a Câmara Baixa do Parlamento francês aprovou um projeto de lei que proíbe o uso em público de vestimentas que escondam a maior parte do rosto. Precisamente, é das mulheres muçulmanas mesmo que o assunto trata.

Falta, agora, a aprovação do Senado. Todo mundo sabe que este não negará fogo. No bom sentido, se bom sentido houver nessa história toda, ou seja, vai aprovar.

O povão, em sua maioria, aprova e apoia a medida. Descendo um pouco no mapa: Espanha e Bélgica estão debatendo legislação semelhante. Por quê? Porque a imigração muçulmana para a Europa aumentou barbaramente. Perdão, eu queria dizer que aumentou consideravelmente.

A nova legislação, caso aprovada, tornará ilegal o uso em público do niqab, aquele véu que deixa apenas os olhos à mostra, e da burca, vestimenta em que o rosto é totalmente coberto, tendo ainda uma tela usada para esconder os olhos.

Tudo isso a BBC Brasil noticiou bonitinho.

Agora, e a questão muçulmana – e parece que há uma questão muçulmana – no Reino Unido? Como é que anda. De oficial, nada. Apesar de não haver tantos muçulmanos quanto na França (onde são 5 milhões, aqui não chegam a 2 milhões), alguns probleminhas existem, embora ninguém queira mexer muito no assunto.

De algumas semanas para cá, o que virou notícia foi o fato de que os ônibus e o metrô, sob a administração da London Transport, andam driblando um fato que beira o, digamos assim, chato. Dependendo da vontade dos motoristas ou condutores, tanto de um quanto de outro transporte, cachorro não entra.

Não há lei nenhuma que proíba a presença de um cachorro em ônibus, metrô ou táxi. Quem dirige e decide é quem guia o veículo. E aí chegamos à questão. Há uma enorme quantidade de motoristas de ônibus e táxis e de condutores de metrô muçulmanos. E entre os muçulmanos o cão, que nós, não-muçulmanos gostamos de chamar de “o melhor amigo do homem”, é tido como um animal imundo.

Agora, aos exageros. Dos grandes. Há um sem número de casos registrados de motoristas de ônibus muçulmanos não aceitarem nos veículos onde reinam absolutos por trás do volante cachorro de cego. Cego, pode. Cachorro de cego, não pode. Acontece que os dois têm o costume de andarem juntos. Essas, suas vidas.

A questão foi levantada na Câmara dos Lordes na semana passada. Levantada apenas. Nenhuma providência concreta tomada. O ministro-adjunto para transportes, Norman Baker, fez saber às companhias de transporte que objeção religiosa não era motivo para expulsar do ônibus um passageiro levando ao lado um cachorro bem comportado. Se o cachorro estiver chateando, declarou Norman Baker, tudo bem. Caso contrário, de jeito nenhum.

A Associação de Cães-Guias para Cegos apontou para o fato de que é inclusive ilegal discriminar contra um cego e seu cão-guia.

Crescem as queixas contra a expulsão de cegos e seus cães (também podem chamá-los de cachorros ou au-aus) de veículos públicos. O Conselho Muçulmano Britânico conclamou os muçulmanos a demonstrarem tolerância. Nada de concreto até agora.

Mais umazinha. Deu nos jornais que na cidade de Wallsall, nos West Midlands, num um centro recreativo, Darlaston por nome, teve de escurecer as 250 janelas de sua piscina interna afim de não ferir a sensibilidade de seus nadadores muçulmanos.

Nada-se, pois, num canto da Grã-Bretanha, no escuro. E não vale levar cão-guia.