Pesquisador americano acusa BP de tentar "comprar" cientistas

Trabalho de recuperação de poço afetado no Golfo do México (AP, 22 de julho)
Image caption Empresa afirma que contratou cientistas para ajudar na recuperação

O presidente da Associação Americana de Professores Universitários, Cary Nelson, acusa a petroleira BP de tentar “comprar” os melhores cientistas dos Estados Unidos com a intenção de ajudar em sua defesa em processos relacionados ao vazamento de petróleo no Golfo do México.

A empresa é alvo de mais de 300 processos judiciais, com pedidos de indenização pelos danos causados pelo acidente. Para se defender na Justiça – e também traçar um plano de recuperação ambiental –, a BP vem contratando a assessoria de cientistas.

No contrato de prestação de serviços, obtido pela BBC, os pesquisadores se comprometem a não publicar o conteúdo das pesquisas realizadas para a petroleira e não se pronunciar sobre o assunto por pelo menos três anos – ou até que o governo americano dê aprovação final para o projeto da companhia para recuperação da área atingida.

O contrato também proíbe os cientistas de realizar pesquisas para outras empresas caso os estudos solicitados entrem em conflito com o trabalho realizado para a BP.

Dados

As restrições preocupam cientistas como Cary Nelson.

“Esse é realmente um caso da BP contra o povo dos Estados Unidos”, disse.

“Nossa capacidade de, como país, avaliar o desastre, determinar políticas públicas e tomar decisões a respeito pode ser influenciada pelo silêncio dos cientistas que estão pesquisando as condições (do desastre ambiental)”, afirma ele.

“Trata-se da tentativa de uma enorme corporação de comprar o silêncio de acadêmicos em grande escala”, afirma.

Bob Shipp, chefe do Departamento de Ciências Marítimas da Universidade do Sul do Alabama, afirma ter sido procurado pela BP, mas, após o cientista ter apresentado restrições, a empresa teria desistido da parceria.

“Eles entraram em contato e disseram que queriam que todo o departamento interagisse para desenvolver o melhor plano de restauração possível para o vazamento”.

“Nós colocamos algumas regras. A de que em qualquer pesquisa que fizéssemos, teríamos total controle sobre os dados, (além de) transparência e liberdade para tornar estes dados disponíveis para cientistas e sujeitos a revisão. Eles saíram e nunca mais ouvimos falar deles”, afirma Shipp.

O advogado especializado em questões ambientais Joel Waltzer, que analisou os contratos, afirma que eles não são transparentes.

“Eles (a BP) controlam o processo. Eles estão tirando do público os dados e a transparência que merecemos”, disse.

Credibilidade

Por meio de um comunicado, a BP afirmou ter contratado mais de uma dezena de cientistas “com experiência sobre o Golfo do México” e que “não impôs restrições para que os acadêmicos falem sobre dados científicos”.

Alguns cientistas, inclusive, estão aceitando participar da parceria com a petroleira.

“O que estou fazendo não é diferente do que eu faria se estivesse dando outra consultoria. Estou fornecendo minha opinião objetiva sobre a recuperação”, diz Irv Mendelssohn, professor do Departamento de Oceanografia e Ciências Costeiras da Universidade do Estado da Louisiana.

Mendelssonh afirma que cobrará o seu preço de consultoria normal - entre US$ 150 e US$ 300 a hora. Ele, no entanto, diz não estar fazendo o trabalho pelo dinheiro.

“Bons cientistas darão suas opiniões baseados em fatos, eles não vão dar opiniões tendenciosas. O que é mais importante é a credibilidade”, diz.

O vazamento no Golfo do México começou em 20 de abril, quando a plataforma de petróleo Deepwater Horizon, operada pela BP, explodiu e afundou, matando 11 funcionários.

Desde então, a petroleira britânica tentou várias estratégias para conter o vazamento, localizado a uma profundidade de cerca de 1,5 mil metros, mas nenhuma conseguiu solucionar definitivamente o problema, considerado o pior desastre ambiental da história americana.

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