Acidente aéreo no Paquistão desperta questões sobre segurança em aviação local

Destroços do avião que caiu em Islamabad em 28/07/2010
Image caption Autoridades de aviação locais dizem que avião estava em bom estado de manutenção

A queda do Airbus que matou 152 pessoas em Islamabad, no Paquistão, despertou dúvidas quanto à indústria local de aviação.

Críticos dizem que uma proliferação no número de companhias e rotas aéreas nos últimos anos não foi acompanhada por padrões mais rigorosos de segurança e de aviação.

Em particular, alguns questionaram as práticas da empresa privada envolvida no acidente da quarta-feira, a Airblue, que tem um bom histórico de segurança.

O governo do Paquistão decretou um dia nacional de luto após o acidente, em que um avião Airbus A321 vindo da cidade de Karachi caiu ao se chocar contra as colinas Margalla, no norte da capital, Islamabad.

Segundo testemunhas, a aeronave voava a baixíssima altitude.

Não há explicações oficiais sobre a causa do acidente, que aconteceu durante a estação das monções, com chuva forte e pouca visibilidade.

Manutenção

Um funcionário da agência de aviação civil do Paquistão (CAA, na sigla em inglês) disse à BBC que, em 2008, um dos aviões da Airblue foi retido em Manchester, na Grã-Bretanha, após um inspetor ter notado que um problema grave identificado na aeronave meses antes ainda não havia sido resolvido.

O diretor de marketing da Airblue, Raheel Ahmed, negou a afirmação e disse que todas as aeronaves da companhia foram inspecionadas e declaradas seguras para voar pelas autoridades responsáveis.

"Estou trabalhando com a Airblue há cinco anos e não tenho lembrança de nenhum incidente deste tipo", disse Ahmed. "E quero acrescentar que a companhia tem as aeronaves mais modernas do Paquistão".

Não há relatos de problemas anteriores, técnicos ou de manutenção, em conexão com o avião que caiu.

O diretor da agência paquistanesa de aviação civil, Junaid Amin, disse que a entidade não permite que aeronaves decolem necessitando de manutenção.

"Seguimos os mesmos padrões internacionais praticados em todo mundo", disse Amin.

Ex-pilotos e críticos da indústria, no entanto, dizem que a CAA nem sempre segue esses padrões.

Falando à BBC, um piloto experiente da companhia nacional de aviação do país, a Pakistani International Airlines (PIA), disse que houve vários incidentes em que a CAA seria culpada por dificuldades técnicas apresentadas por aeronaves.

"Por exemplo, o acidente de 2006 foi resultado de excesso de peso na aeronave. Isso estava claro no momento em que ela recebeu permissão de voar - pela CAA", disse o piloto.

O principal diretor da PIA e membro do conselho da CAA, Aijaz Haroon, nega a afirmação, dizendo que o acidente de 2006 foi provocado por erro do piloto.

Mas a própria PIA, dirigida por Haroon, esteve envolvida em vários problemas operacionais. Em 2007, seus voos chegaram a ser proibidos pela União Europeia por problemas de segurança.

Pilotos

A segurança dos aviões não é a única questão. A condição física dos pilotos também tem sido motivo de preocupação.

"Hoje, pilotos são obrigados a voar muito mais horas do que o que é considerado viável", disse AM Rabbani, secretário-geral da associação de pilotos do Paquistão - Pakistan Association of Airline Pilots (Palpa).

"Isso ocorre principalmente por causa de novos regulamentos implementados pela CAA", disse Rabbani.

Existe, no entanto, um histórico longo de desavenças entre a PIA, CAA e Palpa por questões trabalhistas.

E para acrescentar, especialistas da indústria dizem que os protocolos de controle de tráfego aéreo e instrumentos de navegação do aeroporto de Islamabad deixam muito a desejar.

"Por que o avião estava circulando a uma altitude de 487 metros quando o mínimo para Islamabad é 900 metros?", perguntou um especialista em aviação local à BBC.

Até o momento, não há respostas para essa pergunta.

E não se sabe qual dos fatores acima poderia ajudar a explicar o trágico acidente.

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