Cascalhando Cascais

Ivan Lessa em ilustração de Baptistão

Tem mais de 30 anos que minha falta de imaginação me leva, todos os anos, por algumas semanas, no verão, a Cascais, Distrito de Lisboa, Portugal.

Comecei mal. Deve ser o sol. Culpei de cara a falta de imaginação. Falta de vergonha na minha cara, isso sim.

Adoro Cascais, o naco de mundo que me foi dado conhecer era pouco e se acabou. Fiquei eu apenas com minhas bem-querências finais e definitivas. Entre as quais, Cascais – e rimo por mero afeto e afecto. Afecto, maneira mais correta de se querer bem, admitamos.

É verdade, eu deveria começar a dar agora satisfação de minha vida. Dizer o que lá faço em Cascais e que graça acho. Não o faço.

Cascais é uma questão muito pessoal. Digo apenas que a água do mar é muito gelada e prefiro ficar à beira da piscina, que, só lá, em Cascais, pronuncio, sempre com açúcar e afecto, como se deve: pixina.

Na pixina, leio os dois jornais diários que compro (Público e o Diário deNotícias) e depois passo para a leitura habitualmente chamada de livros de beira de pixina. Policiais, em geral. Este ano, faço exceção. Só vou de Saramago.

Faltam-me devorar 3 ou 4 de seus livros e pretendo pôr-me em dia com esse colosso que se foi antes e depois de devorar da ida às casas de pasto.

Os livros que me faltam do Saramago, vou comprá-los na Feira do Livro, ali embaixo, na Praça Visconde da Luz, que, todo ano, rente como pão saloio quente, lá está, por 4 semanas. Depois, subo a Valbom para pegar um dos melhores sorvetes (diga gelado) do mundo, o do Santini. Ano passado, tinha de cupuaçu, vejam vocês.

Mas estou dando muita satisfação de mim mesmo. Como Leonardo DiCaprio indo às compras, boto de novo os óculos escuros para que não me reconheçam e vou aos dados que muitos diriam frios mas para mim são mornos e suaves.

Cascais é uma vila na sub-região da Grande Lisboa, dela distante uns 30 minutos e fica na orla marítima. Tem 33 mil e 300 habitantes e espero que nenhum deles faça parte dos 500 milhões de associados ao chamado sítio de relacionamento social Facebook. Se tiver, falará baixo e não se gabará do fato e do facto diante amigos e estranhos.

Cascais está mais cara – e para mim sempre mui querida –, mas, mesmo assim, tem seu mais que devido orgulho.

Pausa para medir estação: Facebook. 500 milhões de associados. Que bom. Em outubro, a Terra deverá contar com 7 bilhões de habitantes. São, portanto, 500 milhões de pessoas a menos que eu não quero e nem preciso conhecer nenhum detalhe a respeito. Os outros 6 bilhões e 500 milhões que passem muito bem, obrigado.

Volto, como uma vocação, a Cascais. Onde, talvez, eu deveria ficar até a hora de botar meu boné e bater com as dez. Cascais é a quinta vila mais populosa de Portugal. Perde para Algueirão-Mem Martins e até mesmo Oeiras, que fica mais adiante, uma das paradas do comboio quando vou ao centro de Lisboa para me sentar num dos bancos da Avenida da Liberdade e, depois, tomar um café (só os muito tolos pegam intimidade indevida e chamam de bica) na Brasileira, na mesa com a estátua do Fernando Pessoa, que, por sinal, nunca lhe roubaram parte alguma do bronze de que é feito.

Cascais é sede de um município com 99,07 km2 de área e 188.244 habitantes, segundo o censo de 2008. Atenção, não confundir com os 33.300 de que falei no início.

É que Cascais se subdivide em 6 freguesias (acho que só temos uma no Brasil: aquela, exclamativa, do Ó!) e vem se recusando sistematicamente, por motivos turísticos, que também ninguém é de ferro, em ser elevada à categoria honorífica de cidade.

Cidade, o mundo tem que não acaba mais. 90% não valem o que o gato enterra. Freguesia é exclusividade, onde os fregueses (perdão pelo sórdido jogo de palavras) têm sempre razão junto às indústrias hoteleiras e gastronômicas, para não falar dos cavalheiros de boné sentados na infinidade de bancos da fre-gue-si-a. Clima ameno, praia, paisagem, charrete, Sintra logo ali em cima, um pulinho, que vale a pena, e é isso aí.

Cito, por puro encantamento, as freguesias em questão: Alcabideche, Carcavelos, Cascais, Estoril, Parede, São Domingos de Rana. Vontade de pedir tudo de entrada ou prato principal, antes de pedir o melão (“Como está o melão este ano?”, pergunto sempre ao garçom. E o melão está invariavelmente bom. Se não estiver, a meloa quebra o galho).

Do lado do condomínio onde tenho um apartamento no rés-do-chão, está o Centro Cultural de Cascais, onde, até setembro, estará vigorando, dengosíssima, uma exposição de Carmen Miranda, curada, saneada e recuperada pelo saudável Ruy Castro.

Irei mais de uma vez. Com um Saramago debaixo do braço. Sem óculos escuro. Depois do Bacalhau à Brás do Viriato, logo ali na rua Vasco da Gama, 100 metros adiante.

Uma porção de coisas mais. Todas particularíssimas. E sem a menor importância ou interesse para os outros. Isto aqui, afinal, e felizmente, não é Facebook, My Space ou Twitter. Que passem bem. Eu farei o possível. Para passar bem, claro.