Novo governo da Colômbia assume com desafio de reatar laços regionais

O presidente eleito da Colômbia, Juan Manuel Santos (esq.), e o presidente do país, Álvaro Uribe, durante encontro nesta sexta-feira (Reuters, 6 de agosto)
Image caption Santos deve adotar postura mais pragmática na política internacional

O presidente eleito da Colômbia, Juan Manuel Santos, assume o governo neste sábado com um índice de popularidade de 76%, em um momento em que o país passa por uma da piores crises diplomáticas com a Venezuela de sua história e encontra-se politicamente isolado da maioria dos países sul-americanos.

Para especialistas ouvidos pela BBC Brasil, uma das prioridades de Santos, ex-ministro de Defesa e herdeiro político do presidente colombiano Álvaro Uribe, deve ser de tentar inverter este cenário.

Para a analista política Maria Teresa Ronderos, um dos indícios de que a normalização das relações com a Venezuela está no topo da agenda da nova administração foi a nomeação da ex-embaixadora colombiana em Caracas, Maria Angela Holguín, como ministra de Relações Exteriores.

"Isso mostra a prioridade que Santos dá ao tema Venezuela", afirmou Ronderos.

Ronderos considera que, com a nova chanceler, vista na Colômbia como uma "técnica" da diplomacia, Santos pretende imprimir uma característica mais "pragmática" às relações exteriores, em especial no tema comercial com a Venezuela, cuja ruptura de relações já afeta a economia colombiana.

Desde que Uribe assumiu a Presidência, em 2002, o combate às guerrilhas por meio da expansão do Plano Colômbia - convênio militar financiado pelos Estados Unidos - acentuou a estreita relação entre Bogotá e Washington, em detrimento de alianças com a América do Sul.

Para Ronderos, o isolamento político dos últimos anos se tornou evidente na última reunião do Conselho Permanente da Organização dos Estados Americanos (OEA), quando a Colômbia acusou o governo venezuelano de abrigar acampamentos guerrilheiros em seu território.

"A Colômbia ficou isolada (na OEA), somente os Estados Unidos apoiaram (as acusações)", afirmou.

As acusações foram o pivô da crise que resultou na ruptura de relações entre os dois países e foi vista com "estranheza" pela maioria dos chefes de Estado sul-americanos.

‘Diplomacia de microfones’

Para a analista política Consuelo Ahumada, professora da Universidade Javeriana de Bogotá, a principal diferença entre Santos e Uribe na relação com a Venezuela e com os vizinhos deve ser a ruptura com o que chama de "diplomacia de microfones", uma referência ao enfrentamento público, não institucional, que caracterizou, por exemplo, a relação de Uribe com o presidente venezuelano Hugo Chávez.

"Uribe mantinha um estilo baseado no confronto. Para Santos, porém, é muito importante restabelecer o clima amigável com os vizinhos, para favorecer as relações comerciais, coerente com a política neoliberal do governo", afirmou.

Image caption Uribe teve diversos desentendimentos com Hugo Chávez

Analistas consideram que Santos buscará se aproximar da Venezuela "o mais rápido possível", porque tem recebido pressão dos setores industriais do país para normalizar o fluxo comercial com o vizinho.

De acordo com o Banco Central da Colômbia, o país deve fechar o ano de 2010 com uma queda de 80% nas exportações para a Venezuela em relação a 2008, quando o país teve um superavit US$ 6 bilhões no comércio com o país.

Para este ano, a previsão do BC é que o comércio com Caracas não ultrapasse US$ 1,2 bilhão.

Os sinais de distensão com o novo governo têm sido enviados também por Caracas. Ao mesmo tempo em que afirmou que Uribe "passaria à lixeira da história", Chávez disse esperar retomar o diálogo com o novo governo "com base no respeito".

O mesmo sinalizou o chanceler venezuelano Nicolás Maduro, nesta semana, ao afirmar que seu governo "confia" que "nos próximos dias (a crise) será superada".

Farc e vizinhos

Para o analista político Maurício Romero, professor da Universidade Nacional da Colômbia, Caracas e Bogotá, precisarão de tempo para limar as asperezas diplomáticas.

"Há uma desconfiança mútua muito grande. É preciso restabelecer a confiança primeiro e ir dando passos de reaproximação", afirmou.

Para Romero, Santos só poderá romper com o isolamento com os vizinhos sul-americanos se adotar uma política mais transparente em relação ao acordo militar com os Estados Unidos e mudar a política em relação às Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc).

"Se houver mudança em relação a estes dois temas, pode abrir um cenário no qual a Colômbia poderia recuperar a confiança dos países latino-americanos e entrar em uma nova etapa de relações com o continente", afirmou.

Para Romero, um dos caminhos seria a abertura para a mediação internacional em um eventual acordo de paz entre o governo e as guerrilhas colombianas, que, em sua opinião, poderia contar com o apoio do Brasil ou de organismos multilaterais como a Unasul, OEA e até mesmo as Nações Unidas, "sem interferir na soberania colombiana sobre o assunto".

Na semana passada, o líder máximo das Farc, Alfonso Cano, propôs a abertura de um diálogo com o novo governo, dias antes de Santos assumir a Presidência.

O futuro vice-presidente, Angelino Garzón, respondeu, que “as portas não estão fechadas”, mas que, para que as negociações sejam iniciadas, a guerrilha terá que concordar em libertar seus reféns de maneira incondicional.

Os analistas concordam que ainda é cedo para pensar em um diálogo de paz e que a política "linha dura" de Uribe tende a ser mantida no governo Santos, porém, estimam que pode haver espaços para "políticas de persuasão" para que os guerrilheiros abandonem a luta armada.

Crise doméstica

Uribe, um dos presidentes mais populares e controversos da história da Colômbia, entregará a seu sucessor um país relativamente mais seguro que há oitos anos, porém com 20 milhões de pobres, em uma população de 44 milhões, e com 3,5 milhões de pessoas vítimas de deslocamento forçado em consequência do conflito armado.

De acordo com analistas, um dos desafios de Santos na política doméstica será recuperar a credibilidade institucional, abalada durante a administração anterior, ajustar o deficit fiscal, estimado em mais de 4% do Produto Interno Bruto e reduzir o índice de desemprego de 12%, uma das mais altas taxas da América Latina.

Para a analista política Maria Teresa Ronderos, outra tarefa de Santos será se desvincular da herança uribista, caso queira imprimir características próprias em seu governo.

A seu ver, já há sinais neste sentido, quando Santos nomeou dois adversários de Uribe como ministros nas pastas de Agricultura e Casa Civil.

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