Líderes de Colômbia e Venezuela aguardam encontro com otimismo e cautela

Juan Manuel Santos e Hugo Chávez
Image caption O encontro dos dois líderes pode acabar com a crise entre os países

Os governos de Colômbia e Venezuela encaram com misto de otimismo e cautela a reunião, nesta terça-feira, entre o novo presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, e o presidente venezuelano, Hugo Chávez, que pode colocar fim à crise entre os dois países.

Tanto Santos como Chávez têm indicado que o objetivo final do encontro é o restabelecimento das relações diplomáticas, rompidas em 22 de julho, depois que a Colômbia acusou a Venezuela de abrigar guerrilheiros em seu território.

Logo ao desembarcar na cidade de Santa Marta, o novo presidente colombiano declarou que “fará tudo” o que estiver ao seu alcance para restabelecer as relações com a Venezuela.

"Estamos nessa histórica cidade e vamos a um lugar igualmente histórico, buscar que as relações entre dois países irmãos possam se restabelecer sobre bases firmes e perduráveis", afirmou Santos ao chegar ao aeroporto de Santa Marta, no caribe colombiano, local do encontro com Chávez.

Mesmo assim, o colombiano se mostrou cauteloso e afirmou não querer gerar muita expectativa em torno do encontro com seu colega venezuelano.

"Chegamos à reunião com otimismo, mas sem gerar muitas expectativas. Peço a Deus e ao libertador (Símon Bolívar) que guie Chávez e eu, a chanceler (colombiana, Maria Angela Holguín) e o chanceler (venezuelano, Nicolás) Maduro, para que tomemos as decisões mais acertadas", disse.

Antes do encontro, o presidente venezuelano, Hugo Chávez, também se mostrou otimista e afirmou que a reunião poderá ajudar a construir “novas relações” entre os dois países.

“Aqui começaremos pacientemente a reconstruir o que foi desmoronado. Contamos com muitos recursos para construir novas e boas relações entre Colômbia e Venezuela", disse Chávez, ao chegar ao aeroporto de Santa Marta.

Pouco depois, Chávez e Santos entraram na Quinta San Pedro Alejandrino, onde ocorre a reunião.

Local simbólico

O encontro entre Chávez e Santos acontece em Santa Marta, na Quinta San Pedro Alejandrino, lugar onde morreu o venezuelano e líder da independência da América hispânica Simón Bolívar, em 1830.

Um assessor da chancelaria venezuelana disse à BBC Brasil que a reunião entre a nova chanceler da Colômbia, Maria Angela Holguin, e seu colega venezuelano, Nicolás Maduro - onde foi acordado o encontro entre os mandatários - foi marcada pela preocupação em conduzir as negociações da forma mais cautelosa possível.

"Foi uma reunião lenta, todos medem o que dizem", afirmou.

O assessor venezuelano disse ainda que um dos possíveis temas a serem abordados por Santos e Chávez é o controle fronteiriço, pivô da crise binacional.

"A fronteira é o ponto fundamental e queremos discutir esses aspecto de maneira integral, pensando na segurança, no desenvolvimento social e econômico da fronteira", afirmou o assessor da chancelaria venezuelana.

"(O ex-presidente Álvaro) Uribe não queria cooperação na fronteira. Se avançarmos nisso, será muito positivo", completou.

Encontro

A discrição é parte da mudança que a chegada de Santos ao poder promoveu na diplomacia colombiana. O fim do tom conflituoso era um pedido dos mediadores da União das Nações Sul-Americanas (Unasul), em especial do governo brasileiro.

O Brasil defende que Caracas e Bogotá deixem de fazer "diplomacia de microfones", em uma referência a discursos de tom veemente que marcaram a relação entre o ex-presidente colombiano Álvaro Uribe e Chávez, para solucionar este, e evitar novos conflitos.

A reunião entre os presidentes foi preparada, na segunda-feira, na Casa de Nariño, sede do governo colombiano, em absoluto segredo.

Em seu primeiro dia de trabalho como presidente, Santos se reuniu durante 30 minutos com o secretário-geral da Unasul, o ex-presidente da Argentina Néstor Kirchner, e a chanceler colombiana.

Kirchner continua na Colômbia e deve participar da reunião entre Chávez e Santos, segundo a agência argentina Telam.

Sua presença, de acordo com analistas, reforça a posição do governo da Venezuela, que vê com bons olhos a mediação da Unasul, mas pode incomodar Santos, que, em seu discurso de posse, disse ter como prioridade retomar as relações com Caracas sem mediadores.

Mudança de rumo

O rápido acordo para o encontro de Santos e Chávez, três dias após a posse do novo presidente, é interpretado pelo historiador e analista político colombiano Jorge Melo como uma demonstração de que Santos quer "corrigir as falhas" do governo anterior, que passaram a ser alvo de críticas no país.

"Muitos criticavam a polarização promovida por Uribe. Esse gesto mostra que Santos abandonou esta linguagem, é uma mudança dramática", afirmou Melo à BBC Brasil.

A seu ver, o encontro poderá propiciar canais permanentes de discussão para evitar novos conflitos, com base na cooperação. "Santos sabe que a guerra real da Colômbia é contra as Farc e não com a Venezuela", afirmou.

Para o historiador, foi "hábil" e "simbólica" a decisão do novo governo de indicar a casa onde Símon Bolívar morreu como lugar onde as relações diplomáticas entre Caracas e Bogotá poderão ser reatadas.

"Bolívar é a figura central para o governo venezuelano, mas também foi o libertador da Colômbia. É um personagem que marca a união entre os dois países", afirmou.

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