Colômbia e Venezuela reatam relações e encerram crise

Hugo Chávez e Juan Manuel Santos
Image caption Os líderes se encontraram no local onde morreu Simón Bolívar

Após mais de quatro horas de reunião, os presidentes da Colômbia, Juan Manuel Santos, e da Venezuela, Hugo Chávez, anunciaram o restabelecimento de relações diplomáticas e deram por superada uma das piores crises da história, entre os países vizinhos.

Em tom amistoso, Chávez e Santos disseram terem "virado a página" anunciaram recomeçar do zero os vínculos políticos, diplomáticos e econômicos entre Caracas e Bogotá.

Os líderes também se comprometeram a estabelecer um maior controle fronteiriço para evitar o trânsito de grupos armados.

Farc

A suposta presença de acampamentos guerrilheiros na Venezuela foi o pivô da crise e centrou as declarações do presidente venezuelano, Hugo Chávez, que voltou a afirmar que não apóia as guerrilhas colombianas.

"Incito a Colômbia, aos que estão convencidos: o governo venezuelano não apóia nem apoiará a guerrilha colombiana (...) acreditem", afirmou Chávez, na quinta San Pedro Alejandrino, em Santa Marta, onde morreu o líder independentista da América hispânica, Símon Bolívar.

Chávez qualificou como "infâmia" as acusações de que seu governo seja conivente com as guerrilhas colombianas que admitiu, porém, que na extensa fronteira entre ambos países há penetração de grupos irregulares.

"Se eu fosse o chefe da guerrilha colombiana faria tudo, tudo para a paz", afirmou.

Tanto Chávez como Santos defenderam a confiança e transparência como base para a reconstrução dos laços diplomáticos entre ambos.

"Necessito que o presidente acredite em mim, e eu, nele", disse Chávez, repetidas vezes em sua declaração.

Em referência à alegadas coordenadas que indicavam a instalação de acampamentos guerrilheiros na Venezuela, Chávez pediu a Santos não acreditar em "fofocas" e estabelecer canais de comunicação permanentes para evitar novos conflitos.

A suposta presença de guerrilheiros colombianos na Venezuela, pivô da crise entre os vizinhos, centrou o discurso do presidente venezuelano Hugo Chávez.

Santos, por sua vez, disse que o posicionamento da Venezuela contra os grupos armados "é importante para que estas relações se mantenham em bases firmes", afirmou Santos.

Cinco pontos

Ambos os países concordaram com a criação de uma comissão que deve tratar de cinco pontos. O primeiro é o pagamento da dívida da Venezuela com os empresários colombianos, estimada em US$ 800 milhões, comissão para acordo de complementação econômica, desenvolvimento social na fronteira e de infra-estrutura e no tema da segurança, ponto mais delicado que acabou sendo o pivô da crise entre Caracas e Bogotá.

"Celebro muito, muitíssimo, esse encontro hoje com o presidente (Hugo) Chávez (...) decidimos virar a página e pensar no futuro nossos povos e países", afirmou Santos.

"Voltamos ao ponto zero (...) Decidimos ir lentamente, porém com passos firmes", disse o presidente colombiano.

Chávez, por sua vez, disse que ele e seu colega colocaram a "pedra fundamental" para estabelecer uma nova relação política e diplomática.

"Agora temos que cuidá-la", disse ele.

"Decidimos reestabelecer as relações políticas, diplomáticas e plenas (...) apesar da gravidade da crise, conseguimos reestabelecer relações", afirmou Chávez, ao lado do novo presidente colombiano, com quem no passado teve enfrentamentos verbais sobre o tema de defesa e guerrilhas.

Colômbia e Venezuela acordaram coordenar atividades para aumentar a presença de ambos Estados na fronteira binacional. Acompanhando a intenção do governo brasileiro, a Unasul (União de Nações Sul-americana) acompanhará os trabalhos dessa comissão.

Unasul

Chávez, que chegou a responsabilizar a Organização dos Estados Americanos pela crise com a Colômbia, elogiou a presença do secretário-geral do bloco, Néstor Kirchner, na mediação da crise e defendeu a Unasul como o espaço "adequado" para tratar os assuntos sul-americanos.

"A Unasul deve se converter em nosso espaço privilegiado, não apenas para solucionar conflitos que podem surgir aqui ou ali", afirmou Chávez.

Em seguida, Santos, reiterando a posição defendida por seu antecessor, Álvaro Uribe, disse que a participação da Unasul como mediadora não "exclui" as outras organizações, em clara referência à OEA. "Não é excludente. (A Unasul) não será o único espaço para a mediação regional", afirmou.

Crise

A economia colombiana foi a principal afetada durante a crise. A previsão do Banco Central da Colômbia é que para este ano a pauta de exportações da Colômbia à Venezuela não supere US$1.2 bilhão, 80% menor em relação à 2008, quando às vendas para o vizinho superou US$ 6 bilhões.

O pivô da atual crise foram as acusações da Colômbia na Organização de Estados Americanos (OEA) de que a Venezuela abriga pelo menos 1,5 mil guerrilheiros em seu território.

Chávez negou que seu governo seja conivente com os grupos irregulares e rompeu relações com o vizinho, acusando o ex-presidente Álvaro Uribe de pretender "promover" um conflito entre ambas nações.

A crise diplomática entre os governos da Colômbia e Venezuela se arrasta desde 2004, porém, subiu de tom em 2009, quando Chávez decidiu "congelar" as relações e "levar à zero" o comércio com Bogotá , em resposta ao acordo militar firmado pelo vizinho com os Estados Unidos.

O acordo - que é visto por Chávez como uma ameaça à seu governo e à paz regional - permite o uso à tropas norte-americanas de sete bases militares colombianas.

Chávez disse que foi acordado com Santos que qualquer acordo firmado por um ou outro país deve ter como base "o princípio de não agressão e de respeito à soberania dos demais países".

Os presidentes terminaram o encontro com um aperto de mãos.

Chávez presenteou Santos, que completa 59 anos nesta terça-feira, com um grande volume da biografia de Símon Bolívar.

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