Passo os dias a zapear

Ivan Lessa em ilustração de Baptistão

Você se sente cansado? Sua vista está sempre meio turva? Uma dorzinha incomoda-lhe a mão? Não, companheiro, não é para tomar Urodonal, Phymatosan ou mesmo o consagrado Rhum Creosotado. Regozijai. Vossa mercê faz parte do imenso clube que, a cada dia, engrossa as fileiras de nosso planetinha, cada vez mais apertado, cada vez mais de segunda mão, mas, apesar desses dois fatores, um clube moderno e, se não exclusivo, ao menos a última palavra em matéria de globalização multicultural galopante.

Sim, amigo ou amiga, você, sem o saber, é a última palavra em matéria de viver a vida em toda sua plenitude.

Não é mais preciso ir até a esquina nem procurar companhia ou um ouvido amigo nos bares e cabarés deste mundo, baratos ou não.

Você é o que há de mais moderno em matéria de gente. Pode encher o peito e nele bater gabando-se para quem quiser ou se interessar em ouvir: “Eu sou o bom, tão sabendo!” Ou “a boa”. Vocês vejam aí.

Deduzi o que acima se seguiu dos dados mais recentes revelados pela Ofcom, a autoridade independente para a indústria de comunicações no Reino Unido.

Comunicado fui e comunicado fiquei dos dados que se seguem, e, já que se trata de Grã-Bretanha, mesmo para aqueles de má vontade que acham que estas ilhas partiram para um estado de semi-decadência, ainda há que se respeitar o país, suas instituições, legados e aqueles que nele habitam.

Se deram ao mundo os Beatles e agora Susan Boyle há, ao menos, que a eles prestar uma certa – apenas uma certa – atenção. Afinal, como se diz, quem foi o oitavo dos Henriques sempre será Majestade, mesmo uma segunda Elizabeth.

A Ofcom divulgou alguns dados fascinantes. Ou por aí. Todos os números que se seguem dizem respeito a estas terras onde me encontro e nela sou, vez por outra, recenseado. Valem para países e habitantes que ambicionam estas vertiginosas alturas dos acontecimentos onde nos encontramos.

Vejamos.

Os britânicos passam cerca de 45% das horas em que estão acordados absorvendo questões ligadas à mídia, dos celulares à televisão. As outras horas em que estão, digamos assim, despertos, a Ofcom não divulgou, no que fez muito bem, já que esses assuntos não fazem parte de sua agenda e, além do mais, seria grosseira intromissão na vida particular das gentes deste país.

Digamos apenas que os britânicos passam ainda 25% do resto das horas em que não estão capotados ou no sofá da sala ou na cama do quarto (lilás? Com cortinas de veludo?) diante da tela de um computador internetando passivamente ou se comunicando socialmente num desses sítios especializados em acabar com a solidão (que já foi agradável e sinônimo de força) que reina neste mundo que já foi de Gog e Magog e agora é de Bill Gates e Steve Jobs.

São, ainda, 13 milhões e 500 mil de internautas digitando em seus celulares todos os dias de semana, quando não estão alegremente tagarelando uns com os outros pelas ruas e esquinas do país. Há, segundo o Ofcom em pauta, 45% de possibilidade de que essas pessoas estejam curtindo ou sendo curtidas no Livro da Face (sim, sim, é Facebook, claro).

Ainda: 37% de todos os lares da Grã-Bretanha têm um vídeo gravador digital. Ninguém quer perder nada do que se passa ou vai passar na televisão ou qualquer outra parte. Terras do Reino Unido cada vez mais cheia de dedos: é digital em cima de digital.

Por fim, embora haja muito, mas muito mais dados e revelações, todos deprimentes, fico sabendo, e quero que vocês fiquem sabendo também, que os jovens são os mais destros na manipulação simultânea de diversas tarefas – eu disse “tarefas”? – midiáticas.

Passam de uma coisa para outra com a maior naturalidade. Os mais velhos, e nem sempre idade é sinônimo de sabedoria, estão entrando na linha (é, online; acertaram) preferem o correio eletrônico. Sendo que foi um custo, ao que parece, fazer com que chamassem a tecnologia em questão de e-mail.