Casal brasileiro alimentou tropas do Exército no pós-Katrina

Rogerio e Nalu Paiva
Image caption Rogério e Nalu Paiva foram contratados para alimentar soldados

Em 31 de agosto de 2005, dois dias após a devastação de Nova Orleans pelo furacão Katrina, o brasileiro Rogério Araújo de Paiva, 45 anos, dono de uma pizzaria na cidade, decidiu doar a comida armazenada em seu restaurante aos integrantes da Fema, a agência que coordena situações de emergência nos Estados Unidos.

“Eles estavam pedindo que as pessoas emprestassem barcos para ajudar no resgate às vítimas. Meu cunhado tinha um barco e foi até o posto onde eles estavam para oferecer ajuda”, diz.

“A cidade não tinha eletricidade, os ingredientes guardados no restaurante iam descongelar e estragar, então resolvi ir junto e oferecer a comida.”

Ao chegar lá, porém, Paiva foi surpreendido por uma oferta de trabalho.

“A empresa que tinham contratado para fornecer as refeições estava demorando a se organizar, e me perguntaram se eu aceitaria cozinhar para eles”, diz.

Durante os cinco dias seguintes, Paiva e sua mulher, Nalu de Castro Zacarias, 49 anos, forneceram 2,1 mil refeições por dia aos funcionários da Fema.

O contrato acabou mudando a sorte de Paiva e Nalu e transformando o casal brasileiro em peça importante nos dias que se seguiram à tragédia do Katrina.

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Dificuldades

Após a primeira semana, o casal recebeu a visita de um general, comandante de uma tropa vinda do Texas para ajudar nos esforços de recuperação da cidade.

O comandante contratou Nalu e Paiva para fornecer duas refeições diárias a seus 1,8 mil homens.

Naqueles primeiros dias após o Katrina, as dificuldades eram imensas. O casal e os dois filhos, Mariana, hoje com 18 anos, e Gustavo, 10, haviam sido expulsos de casa pelas águas que inundaram 80% da cidade. A família estava abrigada na casa da irmã de Nalu.

Nova Orleans estava cercada por barricadas. Nada na cidade funcionava, não havia energia, os restaurantes e supermercados estavam fechados.

Para preparar as refeições, eles tinham de viajar até Baton Rouge, cidade a cerca de 120 quilômetros de distância que recebeu boa parte dos desabrigados do Katrina.

Lá, compravam os ingredientes e usavam a infraestrutura de outro restaurante da rede Rotolo`s, da qual sua pizzaria fazia parte. Depois, voltavam a Nova Orleans para entregar a encomenda.

“A gratidão deles era comovente”, diz Nalu.

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Rita

Image caption Pizzaria do casal Paiva é ponto de encontro de brasileiros na cidade

Menos de um mês depois do Katrina, um novo furacão, Rita, atingiu a região, desta vez se dirigindo ao Texas. Os soldados a quem o casal fornecia comida foram convocados de volta a seu Estado.

Mais uma vez, Nalu e Rogério receberam uma encomenda. A Fema precisava de 100 mil refeições por dia para sua equipe em Lake Charles, quase na divisa com o Texas, e pediu a ajuda do casal.

“Ao longo de oito dias, fizemos um total de 60 mil refeições”, diz Paiva. Nesta época, 20 pessoas ajudavam a preparar a comida.

Passado o período de emergência, Nova Orleans começou aos poucos a voltar ao normal.

A pizzaria de Nalu e Paiva virou ponto de encontro dos brasileiros que chegaram para trabalhar na reconstrução da cidade. Até hoje, o casal é referência entre a comunidade brasileira em Nova Orleans.

Investimento

A participação no episódio do Katrina mudou o desfecho de uma história iniciada no fim dos anos 80, quando Nalu, nascida em Fortaleza e criada no Rio, e Paiva, natural de Natal, haviam se mudado para os Estados Unidos pela primeira vez.

Em 1995, eles voltaram ao Brasil e investiram em um negócio de importação e exportação de frutas, que não deu certo.

Na safra de 2004, uma chuva de 15 dias arrasou a colheita, e o casal acabou com uma dívida de US$ 100 mil dólares.

“Resolvemos voltar para os Estados Unidos. Chegamos aqui só com duas malas”, diz Nalu.

Paiva foi trabalhar em uma pizzaria até conseguir abrir seu próprio negócio. Seu restaurante havia sido inaugurado apenas um mês antes do Katrina.

Com o dinheiro ganho durante o período, o casal quitou a pizzaria e comprou a casa de quatro quartos e quatro banheiros em que vive hoje.

“Tudo o que eu perdi no Brasil foi com a chuva. Tudo o que eu ganhei aqui foi com a chuva”, diz Paiva.

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