Com seca no Peru, Região Norte teme pior estiagem desde 2005

Gabriela Vildósola
Image caption Nível do rio Amazonas teve maior baixa em 40 anos em Iquitos

Uma baixa histórica no nível das águas no Rio Amazonas em sua parte peruana deixou o Estado do Amazonas em situação de alerta e a Região Norte na expectativa da pior seca desde 2005.

Segundo dados da Marinha peruana, na cidade de Iquitos (nordeste do país), o rio chegou a 105 metros de altura em relação ao nível do mar - a maior baixa registrada em 40 anos.

De acordo com a AAM (Associação Amazonense de Municípios), pelo menos 14 cidades ribeirinhas já têm dificuldades de abastecimento e locomoção. Cinco municípios às margens do Rio Juruá, que também nasce no Peru, estão isolados.

Em alguns trechos, o Rio Amazonas já não tem profundidade para que balsas com mercadorias e combustível para energia elétrica cheguem até as cidades. A Defesa Civil já declarou situação de atenção em 16 municípios e situação de alerta - etapa imediatamente anterior à situação de emergência - em outros nove.

Os estados de atenção e alerta são preventivos. Enquanto o primeiro equivale apenas a uma advertência, o segundo indica que a prefeitura atingida deve realizar um levantamento dos problemas na cidade e da quantidade de pessoas atingidas, para o caso uma ação da Defesa Civil ser necessária. No estado de emergência, os planos de contingência são colocados em prática.

Ao menos três municípios, Itamarati, Envira e Benjamin Constant, já entraram com pedidos de situação de emergência.

Apesar de normal nesta época do ano, a descida do nível dos rios aconteceu cerca de 25 dias antes do previsto, segundo a SNPH (Superintendência de Navegação, Portos e Hidrovias do Amazonas). O Rio Negro, um dos mais importantes para a navegação na região, está baixando 21 centímetros por dia, sendo que o comum nesta época seria sete a oito centímetros diários.

A capital do Estado já começa a sentir os efeitos da estiagem. De acordo com a SNPH, o preço do combustível em Manaus deve aumentar cerca de 15%, porque o transporte do álcool de Porto Velho pelo Rio Madeira enfrenta dificuldades.

Rios menores perto das fronteiras com Peru e Colômbia também estão desaparecendo mais cedo do que o previsto.

Esperança de chuvas

A ANA (Agência Nacional de Águas) confirmou que os rios da Bacia do Amazonas no Brasil já sentem os efeitos da seca. Nas medições mais recentes, todos os postos, exceto um, registraram níveis abaixo das maiores vazantes já registradas.

O pesquisador de recursos hídricos do INPA (Instituto Nacional de Proteção Ambiental) Sérgio Bringel afirmou que o Brasil deve ser atingido com mais força pela baixa dos rios no início de outubro, caso a seca continue. "A parte brasileira da Bacia Amazônica recebe muito mais água do que produz. Sem esse fluxo, teremos problemas mais sérios", diz.

No entanto, o Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia) prevê nível de chuvas normal para a região no próximo semestre.

Para Bringel, isso pode ajudar a aplacar os efeitos da seca peruana no Brasil, mas não há garantia.

"Nessa época do ano, a região não recebe muitas chuvas normalmente. Pode ser que não seja o suficiente para manter a bacia estável", afirma.

Em comunicado oficial, o CPTEC (Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos) do Inmet afirmou que não há evidências de que a seca atual seja um indicador de mudanças climáticas associadas ao desmatamento ou ao aquecimento global.

A maior seca já registrada no Estado do Amazonas foi em 2005. Próximo a Manaus, o nível do rio Amazonas chegou a ficar três metros abaixo da média e uma área de cerca de 2,8 mil km² foi atingida por incêndios, por causa da pouca chuva.

Em 2007, especialistas em mudanças climáticas em conferência na Universidade de Oxford afirmaram que a seca na região não estava associada ao aquecimento global, mas sim ao aquecimento da superfície na área tropical do Atlântico Norte.

O modelo de previsões das mudanças climáticas no Amazonas do Serviço de Meteorologia da Grã-Bretanha alertou para o possível aumento gradual de frequência e gravidade dos períodos de estiagem, que devem se tornar mais comuns até o fim do século.

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