Para clérigos muçulmanos, queima do Alcorão ameaça relação do Islã com o Ocidente

Alcorão
Image caption A queima do livro prejudicaria a segurança americana

O plano de um pastor americano de queimar cópias do Alcorão, o livro sagrado do Islamismo terá graves consequências para as relações entre o Islã e o Ocidente, advertiram clérigos muçulmanos à BBC Brasil.

De acordo com eles, as ações do pastor Terry Jones e seus seguidores são similares às dos extremistas, que agem sob a bandeira do Islã.

Jones comanda a pequena igreja cristã Dove World Outreach Center, na cidade de Gainesville, no Estado da Flórida, e afirmou que pretende queimar exemplares do Alcorão para marcar o aniversário dos ataques de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos.

"Ao fazerem isso, eles provarão nada mais do que apenas o fato de que são pessoas extremistas e fanáticas, que advogam a intolerância, a discriminação e o ódio entre as comunidades", salientou à BBC Brasil o xeque Hussein Al-Mustafa, clérigo da mesquita Al-Omari, a maior e mais tradicional da cidade de Trípoli, no norte do Líbano.

Al-Mustafa disse que se mostra preocupado com os planos de Jones de queimar o Alcorão, pois pessoas mais conservadoras no mundo islâmico podem interpretar isso como uma ação do Ocidente contra o Islamismo.

"Tudo o que este pastor fará será incendiar os ânimos entre aqueles grupos mais fanáticos dentro do Islamismo. Há muçulmanos que são levados por líderes extremistas, que poderão usar isso como uma forma da incentivar ataques contra ocidentais."

Guerra

Para outro clérigo, o xeque Mohamed Rahal, do Centro de Estudos Islâmicos de Beirute, o ato da pequena igreja americana se refletirá na percepção dos muçulmanos de que há uma guerra contra o Islamismo em andamento.

"Em um momento em que o próprio presidente americano Barack Obama tenta aproximar o mundo ocidental do mundo islâmico, atos como esse podem colocar tudo a perder", disse o xeque à BBC Brasil.

Rahal lembrou que a publicação por um jornal da Dinamarca, em 2005, de uma caricatura representando o profeta Maomé gerou violentos protestos de muçulmanos em vários países do mundo.

"Esse pastor deveria se perguntar como ele e seus fiéis se sentiriam se muçulmanos pregassem a queima da Bíblia Sagrada, livro que nós respeitamos."

Valores

Imad Salameh, professor de Ciências Políticas da Universidade Americana Libanesa, disse que o pastor colocará em xeque os próprios ideais americanos de liberdade, tolerância e iluminação.

"É uma ignorância extrema, e este incidente será uma vergonha aos fundadores dos Estados Unidos, que pregavam o convívio, a tolerância e uma sociedade de cidadãos livres que não destroem uns aos outros", afirmou.

"Este ato, se for evitado, poderá dar uma oportunidade para os Estados Unidos reavaliarem seus princípios e resgatar aqueles velhos ideais americanos que agora parecem terem sido esquecidos."

Segundo o professor, há uma necessidade de o Ocidente conversar com o mundo islâmico "senão estaremos incentivando cada vez mais uma guerra de civilizações em pleno século 21".

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