América Latina

Análise: reaparição de Fidel Castro pode indicar apoio a reformas de irmão

Fidel Castro

Fidel Castro fez várias aparições públicas nas últimas semanas

Após anos fora dos holofotes, o ex-presidente cubano Fidel Castro voltou a aparecer publicamente e a conceder entrevistas nas últimas semanas, num esforço que para muitos analistas pode ser interpretado como uma possível ajuda ao seu irmão e atual presidente, Raúl Castro.

Raúl, de 79 anos, assumiu a Presidência após Fidel, de 84, se afastar do poder por problemas de saúde, há quatro anos, e iniciou um processo de reformas econômicas e políticas.

Em uma entrevista publicada nesta quarta-feira pela revista americana The Atlantic Monthly, Fidel afirmou que o modelo de comunismo em Cuba "já não funciona".

Ele fez a declaração ao ser questionado se o modelo do comunismo cubano ainda deve ser exportado a outros países, como o ex-presidente tentou fomentar no passado. "O modelo cubano já não funciona nem para nós mesmos', afirmou Fidel Castro.

Para o correspondente da BBC em Cuba Fernando Ravsberg, a crítica parece dirigida ao modelo de comunismo aplicado em Cuba desde a "ofensiva revolucionária" de 1968, quando se nacionalizaram todas as pequenas empresas e comércios, inclusive os camelôs -, e não ao comunismo em geral.

“Tudo parece indicar que (Fidel) está em um período de autocrítica que implica, de fato, em um respaldo às reformas econômicas, políticas e sociais empreendidas por seu irmão”, diz Ravsberg.

Diferenças

Nos últimos anos, debateram-se muito as diferenças políticas entre os dois irmãos. Raúl Castro deu início a uma série de reformas em terrenos delicados como o econômico, político e até dos direitos humanos.

Para realizá-las, sua única opção era mudar medidas adotadas pelo próprio Fidel, entre elas a desestatização da agricultura, o acesso a hotéis, à internet e a libertação dos prisioneiros de consciência.

Foi justamente durante a libertação dos dissidentes que Fidel reapareceu em público, o que para muitos representou um apoio à medida, diz Ravsberg. Pouco tempo depois ele assumiu a responsabilidade pela perseguição de homossexuais na ilha e agora aceita que o velho “modelo” está caduco.

Reformas

Desde que assumiu oficialmente a presidência, Raúl Castro deu início a uma série de reformas que lentamente transformaram o modelo econômico cubano, caracterizado até então pela total estatização da economia.

Em um de seus discursos, aceitou que existam diferenças sociais dentro do socialismo e abriu o acesso de cubanos a telefones celulares, computadores e hotéis, onde a cifra de turistas nacionais disparou até chegar a 10% da ocupação total no verão do ano passado.

Na agricultura, Raúl Castro iniciou uma reforma agrária que inclui 50% das terras cultiváveis, acabando com as granjas estatais e dividindo a terra entre famílias camponesas, o setor rural mais produtivo de Cuba.

A redução de pessoal nas empresas estatais também permitiu que mais pessoas passassem a trabalhar por conta própria e, por sua vez, anunciar a contratação de mais pessoal, com a abertura de pequenas empresas, antes mal vistas em Cuba.

Os barbeiros também foram autorizados a alugar suas barbearias e pagar impostos, em vez de receber um salário do governo.

Nível político

Em nível político também houve reformas. Dois dos colaboradores mais próximos de Fidel – o vice-presidente Carlos Lage e o chanceler Felipe Pérez Roque – foram destituídos e, depois deles, muitos outros, menos conhecidos internacionalmente, também caíram.

Desde que assumiu a presidência, Raúl Castro iniciou uma aproximação com a Igreja Católica e foi o primeiro líder do regime comunista a receber oficialmente o enviado do Vaticano Tarcisio Bertoni, por quem enviou uma mensagem a Washington.

A relação bilateral chegou ao ápice quando o cardeal Jaime Ortega anunciou a libertação de todos os prisioneiros de consciência e a autorização para que as damas de branco realizassem manifestações públicas, um fato inédito.

Para completar, diz Ravsberg, Raúl Castro tenta ainda mudar o estilo de governo, aparecendo pouco em público e apostando na institucionalização do país. Uma tarefa complexa depois dos 50 anos da liderança carismática de Fidel.

Irã

A entrevista publicada pela Atlantic Monthly foi concedida ao jornalista Jeffrey Goldberg, convidado por Fidel para uma conversa em Havana depois que o ex-líder leu um artigo seu sobre as relações entre Israel e Irã.

Na primeira parte da entrevista, publicada na terça-feira, Fidel Castro havia criticado o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, por negar a existência do Holocausto.

Para Fidel Castro, o Irã e seu presidente, Mahmoud Ahmadinejad, deveriam abandonar o antissemitismo e entender os motivos pelos quais os judeus foram perseguidos em todo o mundo ao longo da história.

O ex-líder cubano também fez na entrevista uma autocrítica sobre a sua posição na crise dos mísseis, em 1962, durante a Guerra Fria, quando o mundo chegou à beira de um conflito nuclear quando a União Soviética teve autorização de Cuba para instalar em seu território uma base com mísseis apontados para os Estados Unidos.

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