Fogos de setembro

Lucas Mendes em ilustração de Baptistão.

"Pula fogueira iá-iá, pula fogueira iô-iô, cuidado para não se queimar pois essa fogueira já queimou o meu amor" (Quem será o autor desta canção de festa junina? Peço desculpas e agradeço pelo verso).

Quem vai pular a fogueira do 11 de setembro?

A do pastor Terry Jones, em Gainesville na Flórida, ameaça queimar o mundo. Ele e uns 30 fiéis vão colocar na fogueira duzentos Corões, o livro sagrado do Islamismo.

Gainesville, com uns 100 mil habitantes na área metropolitana, é sede da vasta Universidade da Flórida. A cidade tem tendência liberal, mas nas vizinhanças pobres da periferia você encontra Terry Jones, que é a fagulha da semana. Por lei, ele pode queimar um metro quadrado do livro que quiser, inclusive a Constituição americana.

Generais, políticos, líderes religiosos - até o Vaticano - acham que iô-iôs e iá-iás muçulmanos em todo o mundo vão queimar no golpe do pastor e reagir, a fogo e bala, contra americanos, cristãos e judeus. O pastor Terry Jones ligou o f***-se.

"O Corão é o demônio" diz ele e vai levar fogo no 11 de setembro. Me parece uma incoerência, porque o capeta mora no fogo. Por que não coloca o Corão no gelo?

A fogueira do imã Faisal Abdul Rauf se chama Casa Córdoba, um complexo comunitário que ele planeja construir a dois quarteirões das torres destruídas no 11 de setembro. Córdoba foi uma cidade espanhola conquistada pelos muçulmanos e teve um período de riqueza material, cultural e espiritual, entre judeus, cristãos e muçulmanos, na Idade Média. Na televisão, o imã Adbul Raud parece o mais santo dos iô-iôs.

A Casa Córdoba vai ter mesquita, igreja e sinagoga, teatro, biblioteca, piscina e outras amenidades. O presidente Obama, um cristão, é a favor da construção. O prefeito de NY, um judeu, também, mas dois terços do país, inclusive a maior parte dos novaiorquinos, são contra a casa do imã Rauf.

Um amigo engenheiro que constrói para a cidade me disse que põe a mão no fogo se os sindicatos novaiorquinos construírem a casa de Córdoba, mesmo se ela passar por todos os testes burocráticos e arquitetônicos,

Um dos fogos mais interessantes da temporada é justamente o que ocupa menos espaço nos jornais: The Tillman Story, o documentário. Pat Tillman era brilhante defensor do time de futebol americano Arizona Cardinals. Ganhava um salário milionário. Bonito como um modelo, liberal de esquerda, leitor de Chomsky, ateu. Deu um choque no país quando anunciou que ia deixar o futebol e se alistar no Exército motivado pelo ataque às torres. Para tristeza da mãe, o outro filho, Kevin, também foi junto. Ambos serviam no mesmo pelotão.

The Tillman Story conta três histórias sobre a morte no Afeganistão do mais famoso recruta americano.

A primeira é sobre a fabricação do herói pelo Pentágono e pelo governo Bush: segundo a versão oficial, Tillman foi morto num combate acirrado com 20 talebãs.

A segunda é sobre a morte de Tillman pelos próprios companheiros num caso de “fogo amigo”.

A terceira é a luta da própria família pela verdade e, depois de anos e sacrifícios, ela chega até o Congresso.

Lá estavam o secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, e todo o alto comando das Forças Armadas.

Quem matou Pat Tillman? Quem fabricou a versão do herói? Quem fez parte da conspiração para esconder a verdade?

Quanta mentira, quanto esquecimento, quanto fogo de artifício no Capitólio. Memorando? Um foguetório de “não me lembro” diante da comissão da Câmara. Nenhum condenado.

Neste nono aniversário do 11 de setembro há fogo de sobra, de iô-iôs e iá-iás, de amigos e inimigos.

Foguetinho: esta coluna estreou no dia 11 de setembro de 2001.