Programa extra parlamentar

Ivan Lessa em ilustração de Baptistão

Amigo é para essas coisas. Gostam de dizer. Um amigo me mandou por e-mail uma longa reportagem publicada no jornal Sunday Mirror (circulação de quase 1 milhão e 200 mil exemplares) deste último domingo, dia 4 de setembro.

Não sei se chegou a nossos sítios noticiosos. Li com um vago (eu ando vagando à beça) interesse e logo nas primeiras linhas ficava claro o motivo da remessa eletrônica. Tinha brasileiro no meio. Ou melhor, brasileira no meio.

Nós somos engraçados. Damos um duro danado para sair do Brasil (meu amigo, safado que só ele, só chama de “bananão”) e, uma vez instalados, legal ou ilegalmente, no tão sonhado estrangeiro, vivemos quase que em função exclusiva do que nos diz respeito: da apresentação da sambista baiana em Hackney ao rodízio em Westbourne Grove e a Igreja do Templo de Deus, passando pelas lojas que vendem massa para pão de queijo e cachaça para a caipirinha.

O que interessa é a reportagem, dita “exclusiva”, assinada por Will Payne. A ela pois. O que acontece é o seguinte: um recém-eleito parlamentar (deputado, né?), Mike Weatherley, de 53 anos, pilar do novo governo do primeiro-ministro, David Cameron, é casado com uma brasileira, chamada Carla, e, há coisa de dois meses, foi inclusive fotografada ao lado do ilustre marido na Câmara dos Comuns.

No que o jornalista dominical vai direto ao assunto: Carla trabalha em três bordéis a que ele chama de seedy, que podemos traduzir por “vagabundos”. O parlamentar em questão, Mike Weatherley, conheceu Carla há 10 anos quando de uma viagem de negócios sua (lá dele) ao Rio de Janeiro, que Payne chama de “hedonística e festiva cidade”.

Segundo as fontes do jornalista do Sunday Mirror, Carla, à época, já exercia aquilo que um dia chamamos de “a mais antiga das profissões”. Casaram-se e Weatherley chegou a comprar um apartamento para Carla no “exclusivo” (está lá no jornal) bairro de Copacabana. Em 2003, o casal legalizou sua situação em Brighton, no condado de East Sussex: marido e mulher.

Agora, em fevereiro deste ano, o repórter investigativo Mike Payne, munido de dados fornecidos por um DeepThroat só seu, visitou uma casa de massagem no sul de Londres. Lá, Carla praticamente ofereceu um menu com uma lista do que ela poderia fornecer àquele que ela acreditava, coitada, apenas mais um cliente.

Instigada pelo possivelmente insinuante jornalista, Carla, que também atende pelo nome de Adriana, tirou o pouco de roupa que ainda vestia e dançou um striptease nuazinha em pelo. Há várias fotos, pudicas no entanto, na reportagem. Conversa vai, conversa vem, no decorrer das ações Carla/Adriana revelou que também fazia michê em dois outros bordéis.

Um parêntese: eu usei o antiquado, porém consignado termo, michê, em sinal de consideração, etimológica e social, ao delicado assunto aqui abordado. Falem-me em “garota” ou “mulher de programa” e o que eu vejo é um auditório de rádio ou televisão. Michê (vem de Michel, como em De Montaigne) é mais sofisticado.

A reportagem adianta ainda uma profusão de dados. Que Carla/Adriana também atende pela nome de Bea. Que possui várias tatuagens. Que cobra 30 libras (uns 80 reais) pelo “alívio” manual, 40 por sexo oral, com camisinha, seguido de sexo completo, sempre de camisinha, por 70 libras (uns 190 reais).

O intrépido jornalista britânico não foi em frente. Limitou-se a ficar em frente ao estabelecimento e observou a entrada e saída, em pouco tempo, de três clientes. Às 7 e 40 da noite, Mike Payne revela que Carla deixou a casa de amores ilícitos e pegou o ônibus. Arremata o gazetista, sem dar maiores explicações, que Carla/Adriana/Bea, no dia 3 de setembro, fazia seu michezinho num bordel de Bedford, desta vez sob um quarto nom de guerre: Bianca.

O membro do Parlamento, senhor deputado Mike Weatherley, informado das informações colhidas pelo repórter, teve uma única reação, segundo o jornal: disse ele “Ó, não! Estou chocado. Separamo-nos em fevereiro e eu não fazia a menor ideia. Que choque horrível! Obrigado por me informar.”

Terá Mike Payne dito “Não tem de quê, deputado”? Carla/Adriana/Bea/Bianca disputará uma vaga no Parlamento britânico? No Congresso brasileiro? Só o tempo e o Sunday Mirror dirão.