O Brasil é igual

Ivan Lessa em ilustração de Baptistão

Volta e meia, folheando na internet nossas folhas, dou com notícias desabonadoras para com nosso país. Isso é normal, faz parte da pauta democrática que, desde há alguns anos, resolvemos seguir.

Meia e volta, para inverter os padrões, vejo-me diante de notas sobre os progressos (e como os há!) que, em profusão, vamos obtendo nas mais diversas áreas.

Acredito apenas que, agora, com as eleições nos aguardando logo adiante, na esquina, deveríamos nos concentrar mais no positivo do que determo-nos nisso ou naquilo outro que porventura venha a empanar o verdadeiro tsunami de progresso que cobriu de ponta a ponta e lado a lado o país. Quando vejo nos jornais britânicos notícias pouco condizentes com a eloquente realidade de nossos fatos, confesso que fico fulo da vida.

Vez por outra, o objetivo não é mais do que empanar a imagem do Brasil no exterior, um velho cacoete de que países ora em posição de igualdade conosco, em termos desenvolvimentistas, guardam uma certa – ou, quem sabe, muita – mágoa em vista do fato de estarmos prestes a ocupar uma cadeira no Conselho de Segurança da ONU, um sonho acalentado há décadas e que só agora, nesta primeira década do século 21, se torna real, concreta e justíssima possibilidade.

Dito isso, ponho as cartas na mesa. Tive o desprazer de constatar, mediante nota publicada num dos sítios (prefiro abrasileirar site, ao contrário da nova edição semi-anglicizada do Aurelião) do JB Online (“na linha”, admito, seria exagero), sob a manchete “Brasil está entre os dez países mais desiguais do mundo, revela estudo”, matéria da Agência Brasil, selecionada para inclusão pela “redação” do órgão, digo, do sítio, em questão. Logo nas primeiras linhas o assunto é frontalmente abordado. Está lá o seguinte:

“O economista-chefe do Centro de Politicas Sociais, vinculado à Fundação Getúlio Vargas (FGV), Marcelo Cortes Neri, afirmou que a baixa escolaridade da população brasileira mantém o País entre as dez nações mais desiguais do mundo. Ainda estamos no top da desigualdade mundial” disse.

Em primeiro lugar, não vejo motivo para o economista-chefe não empregar “topo”, português dos mais legítimos, ao invés do anglicismo top. Isso, no entanto, é birra pessoal minha e não vou criar caso por causa de uma bobagem. Afinal, esta semana mesmo, muitas de nossas folhas deram Nadal vencendo um Torneio Aberto ao passo que outras preferiram “Open”. Quanto a Grand Slam, todo mundo se fechou em copas. Cada um de nós sabe não só onde lhe dói o sapato, como também onde ele nos é mais confortável no pé.

Logo no segundo parágrafo, o JB adianta que o mesmo economista, seguindo o índice de Gini, ou Coeficiente de Gini, (método desenvolvido pelo matemático italiano Corrado Gini para medir a desigualdade de distribuição de renda entre os países), o indicador caiu de 0,6068 para 0,5448, em 2009.

Esclareça-se que, segundo Gini (parece nome de refrigerante), quanto mais perto de 1, maior a desigualdade. Portanto, se não me imbecilizei de vez, a coisa melhorou. Um tico (e não um tick), mas melhorou.

A nota revela ainda que o índice brasileiro é superior ao de países como os Estados Unidos (em torno de 0,400) e da Índia (0,300). Números esses que não são para país algum se gabar. Por que então não divulgar esse fato e não a permanência próxima ao pódio da desigualdade de nosso Brasil? Coisas.

Não é só o JB, agora em prensagem (se esse é o termo) apenas eletrônica. Outros seguem a mesma linha. Faz-se necessário um matemático italiano – um Luigi, talvez – para nos brindar com um coeficiente mais, por assim dizer, “igual”.

Ainda ontem, terça-feira, 14 de setembro, lá estava a Folha de SãoPaulo noticiando em manchete que diz tudo: “ONU critica trabalho escravo no Brasil”.

Ninguém para divulgar a manchete de vários jornais britânicos do mesmo dia 14 a respeito dos índices de trabalho nestas ilhas: “1 milhão e 400 mil adultos nunca trabalharam um único dia em suas vidas”. Solaparam-se a si próprios e nós, cavalheirescos que somos, não fomos nessa e nem passamos adiante.

Sejamos iguais. Mas não tanto.