Gasto de países ricos com guerras prejudica ajuda a pobres, diz Jeffrey Sachs

Segundo economista, nações desenvolvidas entregaram, de 2005 até agora, apenas metade dos US$ 30 bi anuais que haviam prometido à África. Foto: BBC
Image caption Segundo Sachs, dinheiro dado a bancos poderia ter ajudado os pobres

O economista americano Jeffrey Sachs, um dos responsáveis pelo lançamento das Metas de Desenvolvimento do Milênio da ONU, criticou nesta segunda-feira os países ricos por gastarem dinheiro em guerras, em vez de cumprir suas promessas de aumentar a ajuda às nações mais pobres.

Segundo Sachs, diretor do Earth Institute da Universidade de Columbia (Estados Unidos) e conselheiro das Nações Unidas, as nações desenvolvidas entregaram, de 2005 até agora, apenas metade dos US$ 30 bilhões anuais que haviam prometido à África.

Ele também afirma que “quase nada” foi repassado pelos países ricos em ajuda para a agricultura e para o financiamento de adaptações visando as mudanças climáticas.

“Os profissionais, os especialistas em saúde pública e os agrônomos deixaram bem claro ao longo da década sobre as maneiras para conseguirmos avanços, mas infelizmente os países com renda elevada foram distraídos pela guerra”, disse Sachs, em entrevista à correspondente da BBC nas Nações Unidas Barbara Plett.

“Eles gastaram trilhões de dólares com guerras e simplesmente não investiram ainda em paz.”

Mais de 140 chefes de governo e de Estado se reúnem a partir desta segunda-feira em Nova York para revisar o progresso no cumprimento das Metas do Milênio, estabelecidas em 2000 para reduzir a pobreza no mundo e para melhorar as condições de vida nos países em desenvolvimento até 2015.

Ajuda aos bancos

O economista rejeitou a justificativa dada pelos países desenvolvidos de que o gasto com a ajuda aos mais pobres foi freado devido à crise econômica global.

“No total, os Estados Unidos irão destinar não mais que US$ 10 bilhões para 800 milhões de pessoas na África. De maneira similar, nós gastamos uma fortuna com os bancos e deixamos os banqueiros se livrarem com dezenas de bilhões de dólares em bônus pagos pelos contribuintes, um dinheiro que poderia ter sido usado para ajudar as populações mais pobres do planeta”, disse Sachs. “Esta é uma questão de escolha, não do nível de renda”.

Na opinião de Sachs, a solução para as Metas do Milênio serem cumpridas é criar sistemas de controle mais eficientes, para que se possa cobrar resultados. Ele, no entanto, critica as nações desenvolvidas por serem resistentes a tais sistemas.

“(Os países ricos) adoram cravar bandeiras e adoram criar centenas e milhares de programas bilaterais, mas quando se trata de mecanismos transparentes, eles fincam mais o pé, porque, com isto, nós podemos contar bem claramente o quanto os países doadores dão e o que eles não dão”, afirmou.

“Círculo vicioso”

O economista afirma ainda que os políticos americanos “se escondem” das Metas do Milênio, o que, segundo ele, acaba afastando a opinião pública desta discussão. “Existe um tipo de círculo vicioso nisto.

Se os nossos líderes não falam sobre estes assuntos, o público não fica sabendo deles, não vê o que pode ser alcançado e, com isso, não resolvemos nada”, diz Sachs.

Apesar das críticas, o economista diz estar otimista com a possibilidade de se obter avanços nas discussões de Nova York. O economista vê uma “tremenda determinação” nos líderes que irão comparecer às reuniões.

O Brasil será representado pela ministra do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Márcia Lopes.

Notícias relacionadas