O Tea Party e o cha cha cha

Lucas Mendes em ilustração de Baptistão.

O Tea Party não é um partido nem uma festa nem um clube de chá. Parece um movimento em plena fervura, mas tem folhas podres. Christine O'Donnel, candidata azarão apoiada pelo Tea Party à senadora em Delaware, tem um currículo de desfalques e calotes, grau zero na chaleira política, um passado ridículo de bruxaria na universidade. Uma de suas campanhas foi contra a masturbação. É uma das peças decisivas no plano de retomada do Senado pelos republicanos.

Outros candidatos com folhas podres e zero em experiência são Sharon Angle, ao Senado de Nevada, que promete acabar com a Previdência Social, o plano de saúde Obamacare e a assistência médica para os velhos.

Carl Paladino, candidato a governador de Nova York, até agora era mais famoso pela conexões suspeitas e pelos e-mails pornográficos e racistas. Jim Miller, candidato a senador pelo Alasca, acusa o governo federal de gastos extras, mas escondia que recebia subsídios para suas fazendas. Nenhum deles ocupou cargo político e este é o maior dos encantos deles. Anti-Washington, são politicamente "puros".

Alguns destes revolucionários do Tea Party, como Christine O'Donnel, foram eleitos em primárias que tiveram menos do que 10% de participação dos eleitores - 3 % no caso de O'Donnel.

Ganharam com o endosso da rainha não coroada do Tea Party - o movimento não tem lideres formais -, Sarah Palin, que foi deputada e prefeita, mas renunciou antes de terminar o mandato de governadora do Alasca. Sarah é um fenômeno do culto da celebridade, genial na autopromoção.

Vamos mudar de chaleira. O rei do chá é um homem que nunca foi político, mas foi pioneiro da autopromoção, do culto da celebridade e revolucionou o consumo de massa na Inglaterra com suas folhas frescas de chá.

Thomas Lipton, descendente de imigrantes irlandeses, saiu da Escócia e da escola aos 17 anos e chegou em Nova York sem ter onde cair morto. Fazia qualquer tipo de trabalho até conseguir um emprego fixo num grande mercado de secos e molhados, o A.T. Stewart, em Manhattan. Os pais em Glasgow tinham um mercadinho sujo e escuro numa favela que Friedrich Engels chamou de "pior vizinhança industrial do mundo".

Thomas Lipton, depois de 4 anos em Nova York, voltou para Glasgow com três lições básicas para ensinar aos pais e ao país: publicidade, apresentação dos produtos e muita luz. Num país que escurece às 3 da tarde no inverno, o novo mercadinho podia ser visto de longe graças ao gás de Lipton. Com estantes sempre abastecidas e impecáveis, em pouco tempo ele tinha uma pequena rede de mercados.

Naquela época, os ingleses já consumiam 140 litros de chá por ano, mas a qualidade não era confiável. Muitos comerciantes misturavam folhas usadas no café da manhã com folhas frescas. A importação era controlada por um monopólio, Mincing Lane.

Thomas Lipton entrou no páreo e seus mercados ofereciam um pacote bem embalado, sempre fresco, pela metade do preço. estruiu a concorrência e em menos de duas décadas, conta o biografo Michael D'Antonio, tinha 300 super mercados na Grã-Bretanha.

Tornou-se um dos maiores anunciantes nos jornais e, na fase pré-rádio, inventava truques: uma fileira de homens gordos carregavam cartazes com o slogan "vim do Lipton". Do outro lado da rua, uma fileira de homens magros carregavam cartazes "vou para Lipton". Naquela época, gordura era sinal de prosperidade.

À publicidade, acrescentou a autopromoção. Lipton foi um do pioneiro no uso do esporte para promover seus produtos. O grande evento esportivo da época era a corrida de iatismo America's Cup. Disputou cinco e perdeu todas.

Já bilionário, adorável, Thomas investiu sua energia em se tornar uma celebridade. Era vaidoso e egocêntrico, mas com seu bigodão, sua simpatia, gravata borboleta, chapéu de capitão de iate, era atração em Londres e Nova York. Circulava com mulheres lindas, tinha acesso ao palácio. Era amigo do rei.

Nos últimos trinta anos, as folhas de Lipton começaram a apodrecer. As mulheres eram apenas um disfarce. Era gay enrustidíssimo como convinha na época. No iatismo, só o chapéu era verdadeiro. A cadeia Lipton se envolveu em escândalos e corrupção, perdeu dinheiro e Thomas Lipton, folha podre, foi jogado no lixo pela própria empresa.

A Unilever comprou a divisão de chá, que está próspera como nunca .

Qual a conexão com o Tea Party de Sarah Palin? A genialidade dela, como Lipton, é a autopromoção e a ótima embalagem, mas, como os candidatos do Tea Party, pode ser folha podre no partido republicano.

Graças ao Tea Party, o partido democrata, hoje ameaçado pela fervura dos radicais conservadores, talvez comemore com um cha-cha-cha as eleições de novembro.