Para sociólogo chileno, eleitor vota em 'pessoas' e não em 'ideias'

Sociólogo trabalhou na campanha do candidato a presidente do Chile Eduardo Frei. Foto: Divulgação
Image caption "Um candidato sem energia não ganha eleição", afirma Eugenio Tironi

Diante de programas de governo cada vez mais parecidos entre si, o eleitor acaba definindo seu voto não pelas ideias propostas, mas sim de acordo com o perfil do candidato, avalia o sociólogo e consultor político chileno Eugenio Tironi.

“Os programas de governo, além de parecidos, muitas vezes são deixados de lado depois. Já o candidato é difícil de modificar”, diz.

Tironi atuou no ano passado como estrategista da campanha de Eduardo Frei, candidato do governo para suceder Michelle Bachelet na Presidência do Chile.

Apesar dos 80% de aprovação de Bachelet, Frei não conseguiu absorver sua popularidade e acabou derrotado para o candidato de direita, Sebastián Piñera.

No livro Radiografia de uma Derrota, lançado recentemente no Chile, Tironi faz um relato do fracasso, com críticas inclusive ao que classifica de “falta de energia” de seu ex-cliente.

“O equívoco começou, sem dúvida, com a escolha de Frei como candidato, uma pessoa que apesar de extremamente capacitada, não transmitia energia ou vigor”, diz.

Para ele, o fenômeno da transferência de votos está sendo mais fácil no Brasil porque a candidata do governo, Dilma Rousseff, tem sua imagem ligada diretamente à imagem de Lula.

“Dilma foi a escolhida do presidente, ou seja, com a total bênção de Lula, enquanto Frei foi apontado pelo partido”, diz o sociólogo.

Leia agora a entrevista concedida por Tironi à BBC Brasil.

BBC Brasil - Aqui no Brasil, a candidata do governo, apesar de ser conhecida apenas há pouco tempo do grande eleitorado, parece estar conseguindo absorver a popularidade do presidente Lula. Por que com Frei foi assim tão diferente?

Eugenio Tironi - O que aconteceu no Chile foi que Frei era a antítese de Bachelet. Como ex-presidente, Frei era considerado um passo atrás em relação a Bachelet, um rosto já velho, sem apego. Era voltar a um carisma masculino, um tanto distante, um tanto frio, depois do carisma empático e carinhoso de Bachelet.

Em termos eleitorais, o Chile queria uma Bachelet com um algo a mais, uma Bachelet 2.0, talvez alguém jovem... E Frei, nesse sentido, era uma involução. Já o adversário, Sebastián Piñera, representava uma mudança, um candidato que era jovem, bastante extrovertido, carismático.

O erro foi do partido, que escolheu um candidato que representava a antítese de Bachelet.

BBC Brasil - Mas voltando ao Brasil, a candidata do governo, a ex-ministra Dilma Rousseff, tampouco é considerada das mais carismáticas e ainda assim está à frente nas pesquisas...

Tironi - A eleição de Dilma faz todo o sentido do ponto de vista eleitoral. Veja, no caso chileno, o candidato do governo não apenas era uma pessoa sem carisma. Frei é um ex-presidente e os eleitores não queriam dar um passo atrás.

Além disso, não havia nenhum vínculo entre Bachelet e Frei, que foi um candidato escolhido pelo partido.

Com Dilma, é diferente. Ela foi escolhida por Lula, um presidente extremamente popular. Sua campanha está sabendo sintetizar uma mudança: Dilma está sendo apresentada como a primeira mulher presidente do Brasil. É uma mudança, uma quebra de paradigma. É algo familiar ao que representou Lula, em 2002, como primeiro sindicalista presidente.

BBC Brasil - A escolha de Frei como candidato, então, foi equivocada?

Tironi - Sim, foi um equívoco. Veja bem, Frei é um político extremamente qualificado, ninguém tem dúvidas. Mas por que votar em Frei? Mesmo as nossas pesquisas mostravam que a rejeição a ele era enorme.

Na campanha nos fazíamos essa pergunta e era difícil responder... Faltava uma mensagem clara, direta, um nicho. Minha opinião é de que, do ponto de vista simbólico, não foi Frei quem representou Bachelet. Tínhamos outros dois candidatos com total vigor e que conseguiam projetar um futuro para o país, como fez Bachelet no imaginário popular.

Sei que isto soa um tanto injusto, mas minha avaliação é de que o eleitorado acabou recusando a figura de Frei como forma de demonstrar seu amor e fidelidade a Bachelet.

BBC Brasil - O senhor diz em seu livro, de forma categórica, que os eleitores votam em pessoas, e não em ideias. Não estaria subestimando o poder das ideias e de um bom programa de governo?

Tironi - No Chile, e creio que também no Brasil, não existem muitas diferenças entre os projetos. Essas diferenças, quando existem, são marginais. Por outro lado, as biografias e a figura dos candidatos são mais ilustrativas e significativas.

Os programas, além de serem convergentes, muitas vezes são abandonados, são deixados de lado ao longo do governo. Já o candidato é algo difícil de modificar. Creio que, em geral, as eleições são disputadas pelas figuras dos candidatos, por pessoas que transmitem ou não energia, que sabem comunicar a vontade de mudança, os desejos.

Especialmente em países jovens e otimistas como são Chile e Brasil, essa é uma variável muito importante.

BBC Brasil - Mas não é também um tanto perigoso que a sociedade esteja tão mais envolvida com a figura dos políticos e não com programas de governo? O resultado disso não seriam governos populistas?

Tironi - Sim, esse perigo existe. Mas um processo eleitoral é feito de escolhas, às vezes é preciso ceder de um lado para ganhar em outro. E para ganhar uma eleição é necessário alguém com uma biografia e com uma personalidade forte. É um dilema bastante difícil de resolver.

O governo de Sebastián Piñera (atual presidente do Chile), por exemplo, está se mostrando cada vez mais personalista, um governo que prescinde totalmente dos partidos, dos parlamentares, das instituições. Há um risco, sim.

BBC Brasil - Sua iniciativa de relatar a derrota de Frei em um livro causou certa polêmica, com críticas de que você estaria expondo seu ex-cliente. Por que decidiu escrever esse livro?

Tironi - Primeiro, porque se aprende mais com a derrota. E essa foi uma derrota que foi autoimposta, porque a Concertación (partido de Bachelet e Frei), que tinha todos os méritos e todos os recursos para ganhar, sobretudo com uma presidente como era Michelle Bachelet, que gozava de um altíssimo nível de respaldo e popularidade, apesar disso tudo foi derrotada. E foi derrotada por sua própria decisão, ao escolher um ex-presidente da República como candidato, uma pessoa repetida, ligada ao passado, como potencial sucessor de Bachelet, que era a pessoa que havia reposto a confiança no futuro, uma pessoal jovial, espontânea, natural... E isso levou a Concertación à derrota.

BBC Brasil - E que lição o senhor tirou dessa derrota?

Tironi - Primeiro que um candidato sem energia não ganha eleição. Não há programa de governo que sobreviva a um candidato apático, sem gana.

Segundo, que uma campanha precisa transmitir, acima de tudo, uma mensagem clara e direta para seu eleitorado. Certamente haverá todo um discurso, todo um aparato por trás, mas sempre com base nessa mensagem. Um bom candidato é aquele sabe por que está ali e como apresentar essa mensagem.