Brasil

Para debatedores, Brasil deve ser proativo, mas seletivo na política externa

Mediadores e debatedores em evento desta segunda-feira (Foto: Flavio Santana)

Intervenção brasileira na questão iraniana foi debatida no evento

Participantes do debate “O Brasil no mundo – política externa e a defesa do meio ambiente”, realizado nesta segunda-feira pela BBC Brasil e a CBN, afirmaram que é importante o Brasil ser cada vez mais proativo no cenário internacional. Os debatedores divergiram, entretanto, quanto à legitimidade de iniciativas de mediação de conflitos em escala global, como no caso da crise gerada pelo programa nuclear do Irã.

Crítico do envolvimento do Brasil com a questão iraniana, o ex-chanceler Luiz Felipe Lampreia disse que o acordo mediado pelo país ao lado da Turquia foi “quase uma piada”, derrotada “por 12 a 2 no Conselho de Segurança” – referindo-se à votação que, pouco depois do acordo mediado por Brasil e Turquia, impôs mais sanções ao regime iraniano.

“Seguramente na América Latina o país deve atuar mais claramente, para prevenir conflitos entre países irmãos”, disse o ex-ministro do governo de Fernando Henrique Cardoso.

“Em temas como mudanças climáticas, reforma financeira e não-proliferação nuclear, o Brasil tem credenciais excepcionais e é respeitado como interlocutor. Mas se meter a mediar conflitos no Oriente Médio é autodestrutivo. Ninguém o reconhece (o Brasil) como mediador legítimo naquela situação.”

Entorno geográfico

Ricardo Seitenfus, representante da OEA (Organização dos Estados Americanos) no Haiti e professor de Relações Internacionais na Universidade Santa Maria (RS), discordou e defendeu a mediação brasileira. Ele afirmou que as ambições do Brasil de se tornar uma potência global passam necessariamente pelo aumento de seu papel como mediador em crises internacionais.

“Um país que pretende ter uma política externa além do seu entorno e ser membro permanente do Conselho de Segurança tem (que ter) interesse além do geográfico. Quem tem interesses globais deve se interessar pela alta política internacional.”

Seitenfus afirmou ainda que o Brasil sempre foi historicamente “reacionário” em sua política externa, porque "reagia em vez de ser proativo, porque não queria que as relações internacionais mudassem”. Segundo ele, entretanto, o país adotou nos últimos anos uma atuação internacional “ecumênica, reformista e pragmática”, que “se colocou à disposição das partes (em conflito) sem se impor”.

Já Sérgio Besserman, professor de economia da PUC-RJ, pediu “realismo” na avaliação da política internacional do país.

“O peso da nossa economia no cenário global é o mesmo que era antes. Ao Brasil interessam os grandes temas, mas só há razão para envolvimento direto se houver possibilidade de capitalização política”, disse ele.

Para o professor, esse não foi o caso na mediação com o Irã. “Se optamos por uma posição tímida em conflitos regionais, qual o sentido em nos envolvermos com questões externas como a do Irã?”, questionou. “Foi um ‘mico’ nosso.”

Seitenfus, por sua vez, disse que a atuação brasileira foi semelhante à da Turquia. Mas José Eli da Veiga, professor da Faculdade de Economia da USP, relativizou a comparação entre os papéis brasileiro e turco, opinando que Ancara tem “uma estratégia clara de ser uma potência do mundo muçulmano” e, portanto, tem interesse direto nos temas relacionados ao Oriente Médio.

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Novo governo

Eli da Veiga levantou ainda a questão de se a política atual do Itamaraty encontrará continuidade no próximo governo eleito.

Para ele, um eventual mandato de Dilma Rousseff (PT) não será necessariamente alinhado ao do presidente Lula nas questões internacionais, por causa da aliança com o PMDB.

“As ideias do PMDB em política externa não têm nada a ver com as do PT, inclusive na questão do Irã.”

Ele afirmou que, em sua opinião, apenas a candidata Marina Silva (PV) tem um programa claro sobre política externa.

Ao comentar a declaração de Eli da Veiga, Lampreia afirmou que a política externa brasileira tem que ser objeto “de um grande debate nacional e eleitoral”.

Ele enumerou o que considera que sejam as “opções estratégicas globais” do Brasil.

"O país tem que ter uma participação internacional restrita a campos seletivos do seu interesse, seguir a ambiciosa política atual (do Itamaraty), se limitar à sua área latino-americana e aos conflitos regionais e fazer uma política que combine as duas últimas opções", afirmou Lampreia, acrescentando: “A questão será quais os limites que o Brasil deseja ter para sua projeção e atuação internacionais.”

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