Brasileiros vão às urnas para escolher futuro do país pós-Lula

Eleitor no Rio de Janeiro
Image caption Cerca de 135 milhões de pessoas estão aptas para votar neste domingo

Com uma legião de 135 milhões de eleitores – o equivalente a sete em cada dez habitantes – o Brasil vai às urnas neste domingo para escolher quem assumirá o comando do país na era pós-Lula.

Desafios para o país não faltam. Se por um lado a economia parece ter finalmente entrado em uma rota de crescimento com estabilidade, ainda há sérios problemas a serem resolvidos no campo da educação, da saúde e da segurança, apenas para citar os temas que costumam encabeçar a lista de preocupações dos brasileiros.

Junto com esses e inúmeros outros temas, outra questão acabou sendo constantemente colocada ao eleitor, durante a campanha: a opção ou não pela continuidade dos oito anos do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

A disputa tem, de um lado, a candidata do governo, Dilma Rousseff (PT), apresentada ao eleitorado não apenas como a preferida do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, como também aquela cujo principal compromisso é continuar os projetos do atual governo.

Principal candidato de oposição ao governo, José Serra (PSDB) evitou a crítica generalizada à atual gestão. O ex-governador de São Paulo imprimiu em seu discurso a idéia de que o Brasil precisa mudar, mas não necessariamente jogando fora os feitos do governo Lula.

Estratégia parecida foi também apresentada pela candidata do Partido Verde, Marina Silva, que durante a sua campanha não mediu esforços em criticar o governo do qual já fez parte, sempre lembrando sua preocupação com o meio ambiente. Mas assim como Serra, a ex-ministra também reconheceu progressos nos últimos oito anos.

Já Plínio de Arruda Sampaio, do PSOL, trouxe um discurso socialista, com críticas contundentes aos três principais candidatos, que segundo ele não estariam verdadeiramente comprometidos com os mais pobres.

Outros cinco candidatos correm por fora na disputa eleitoral deste ano, mas segundo as pesquisas de opinião, nenhum deles conseguiu atingir 1% das intenções de voto.

Image caption Dilma votou ao lado de Tarso Genro em Porto Alegre

De acordo com as últimas pesquisas de opinião divulgadas antes do pleito, o cenário é indefinido quanto à possibilidade de haver um segundo turno. Dilma Rousseff lidera as pesquisas Ibope e Datalfolha, mas está no limite de votos válidos necessários para vencer o pleito no primeiro de turno. Como as pesquisas têm uma margem de erro de dois pontos percentuais, o cenário é indefinido.

Os eleitores também irão às urnas neste domingo para escolher os governadores em 26 Estados e no Distrito Federal, bem como os representantes para os Legislativos estaduais e federal.

Leia também: Ibope e Datafolha divulgam últimas pesquisas de intenção de voto

A candidata Dilma Rousseff votou na manhã deste domingo em Porto Alegre, ao lado do candidato ao governo do Estado pelo PT, Tarso Genro. José Serra votou à tarde em São Paulo.

Os presidenciáveis Plínio de Arruda Sampaio (PSOL) e Marina Silva (PV) também votaram pela manhã em São Paulo e Rio Branco, respectivamente. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva também já votou. Ele compareceu ao seu colégio eleitoral em São Bernardo do Campo ao lado da primeira-dama.

Responsabilidade

Essa é a sexta vez, desde o fim do regime militar, que o brasileiro pode escolher, pelo voto direto, o seu candidato preferido para governar o país. É também a primeira vez em 20 anos que Lula não está entre as opções de voto.

Image caption Serra foi o último candidato à Presidência a comparecer às urnas

Para os cientistas políticos, o momento é simbólico, não apenas em função da ausência de Lula na urna eletrônica, mas também pelo fato de o presidente estar prestes a entregar o cargo com uma aprovação recorde, próxima a 75% da população.

“O presidente eleito neste domingo, seja lá quem for, já começa seu trabalho com uma responsabilidade enorme – a de substituir um presidente extremamente popular”, diz o cientista político Fábio Wanderley Reis, da Universidade Federal de Minas Gerais.

Reis lembra ainda o fato de que o Brasil foi governado por apenas dois políticos nos últimos 16 anos. “Quem vier agora terá a chance de inaugurar sua própria era”, diz.

Falhas

Apesar dos avanços do ponto de vista democrático e institucional, a campanha deste ano mostrou que o sistema político-eleitoral ainda precisa aperfeiçoar suas regras.

Denúncias envolvendo os candidatos, ausência de programas de governo e mudanças de última hora na legislação mais uma vez marcaram a eleição, deixando o debate programático em segundo plano.

Antes mesmo do início oficial da campanha, em maio a imprensa já trazia a denúncia de que a campanha de Dilma Rousseff teria encomendado um dossiê com conteúdo negativo sobre José Serra.

A partir daí, foram quatro meses com intensa troca de acusações e mais denúncias. A quebra do sigilo fiscal de pessoas ligadas ao candidato tucano e, logo depois, os relatos de um suposto esquema de tráfico de influência envolvendo funcionários da Casa Civil, com a consequente demissão da secretária-executiva Erenice Guerra, acabaram se tornando os principais assuntos da campanha.

Image caption O presidente Lula votou em São Bernardo do Campo

O eleitor também foi prejudicado pela ausência de programas de governo, já que os dois principais candidatos não apresentaram um documento final com suas propostas para o país, e também por dúvidas quanto às regras eleitorais – como no caso da aplicação da Lei da Ficha Limpa, que ainda precisa ser definida pela Justiça.

Desafios

Mesmo com os percalços do sistema eleitoral, o brasileiro chega às urnas neste domingo com uma série de demandas, que vai da economia à segurança pública, passando por questões como saúde, educação e meio ambiente.

O novo presidente vai encontrar um país que avançou nos últimos anos em diversos aspectos, sobretudo no campo econômico e social.

Se por um lado o país parece ter encontrado o rumo do crescimento com inflação sob controle, por outro lado os juros continuam os mais altos do mundo, pressionando a dívida pública para cima.

A economia brasileira se consolidou como a 8ª maior do mundo neste ano, mas o país ainda é apenas o 72º do mundo em renda per capita, atrás de países como Argentina (50º), México (53º), Turquia (57º), Venezuela (66º) e Irã (68º), segundo dados do Banco Mundial.

Outro setor que também evoluiu no país na educação. A taxa de analfabetismo, que em 1960 chegava a 40%, caiu a 9,7% no ano passado, segundo dados do IBGE.

Mas se os números absolutos mostram uma evolução, a qualidade do ensino ainda deixa a desejar. Um estudo elaborado pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) em 2007 colocou os alunos brasileiros entre os piores em conhecimentos de matemática, capacidade de leitura e ciências entre 57 países analisados.

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