Lição das urnas

Ivan Lessa em ilustração de Baptistão

Eu posso não votar, mas sei ler, com certa agilidade, desde os 6 ou 7 anos. Desperdicei minha vida não tendo, ao atingir a idade da razão, visto as luzes de ser eleitor ou candidato. Loucuras da mocidade, dirão muitos. Irresponsabilidades da maturidade, ponderarão outros. Caduquices da senilidade, sentenciarão contemporâneos. Na aurora da minha vida, percebi desde logo a existência de mais uma de nossas variadas e manhosas tradições, lá no alto, juntamente com o lança-perfume, o bate-bola, o basquete de bolso e o dirigir impropérios às mocinhas que passam.

Trata-se de forma artística superior à composição, acompanhado de caixinha de fósforo no buteco, e à representação em quadro ou fotografia do charme inefável dos pobres. Refiro-me à frase que dá título a esta coluna. “Lição das urnas”.

Pouco tivemos a aprender, de Vargas a Vargas, e, um tico depois, do bento-que-o-bento-frade do revezamento no poder das altas, médias e baixas milicalhanças – com seus olhos verde-oliva cor de...esperança? Mas, em havendo escrutínio, por mais maroto que fosse, lá estava o editorial inevitável como o resultado do jogo do bicho pregado no poste da esquina: “Lição das urnas”.

Posso estar enganado, mas mesmo na época em que eu era leitor feroz do Gibi, do Globo Juvenil, do Guri e do Lobinho, era invariável também, entre um Batman e um Homem-Bala, o editoral em questão. “Lição das urnas”. Versão quadrinizada.

Data daí, por certo, meu índice de 8,5 na escala Will Eisner de politização. Ou simples magnitude, conforme esse novo cacoete que veio com a reforma ortográfica ou alguma Constituição que passou na moita entre o Povão (sempre com maiúsculo, que ele bem o merece).

Como tudo mais que diz respeito à política e seus asseclas, não me lembro de uma única palavra das lições em questão. Nada aprendi com elas. Talvez fosse algo na base do “Ivo vê a uva” ou “Vovô vê a vulva da vovó”. Tanto faz. O objetivo do editorial era existir. Platonicamente. Sibilinamente.

O que era a hipotenusa, eles, editorialistas de escol risonho e franco, não explicavam. Enchiam no entanto o espaço que lhes cabia uma vez a cada passagem do cometa de Halley. Ficava a lição ininteligível. Os soldadinhos guardavam seus riflezinhos e marchavam direitinho, cabeça de papel, de volta (ao menos por uns tempinhos) para o quartel.

Nós outros, líamos, relíamos, treslíamos e seguíamos em frente, marchando para o oeste, em muitos casos, como pedia um hino da época.

Juro “bra Deus”, feito dizia um amigo meu de origem turca, que, neste preciso momento do dia 4 de outubro, em algum canto de nosso glorioso país, algum jornal ou jornaleco, atochou lá seu “Lição das Urnas”. E os papudos, esperançosos como os olhos de Angelina Jolie, estão aprendendo. Mais duas ou três escrutinizações e teremos os ensinamentos na ponta da língua. Ou do dedão do pé, Por aí.

Eleições gerais, ou coisa muito parecida, umas até mais interessantes e astutas, em outras modalidades, em outros países. Aqui está, comendo solto no País de Gales, o Ryder Cup, taco a tacada de golfe que não me deixa mentir.

Também tiveram lugar ("que coincidência"), nesse mesmo domingo, a abertura, na Índia, dos Commonwealth Games, que subsistem desde 1931, mais do que nossas tradições democráticas, e a que poderíamos traduzir por Jogos da Comunidade das Nações, que são elas 53, e representam os laços, esses dentro e não fora, com a potência colonial que foi o Reino Unido. Trocados do império, por assim dizer.

Mais coincidentemente e pouquíssimo divulgadas entre nós, brasileiros, alfabetizados ou meros macumbeiros, 135 milhões em ação escrutinizadora, foram as eleições realizadas no mesmo 3 de outubro focando as divisões étnicas da Bósnia há mais de 15 anos, geradoras de um sem número de conflitos inter-étnicos e muita discussão sobre os prós e os contras, entre outras medidas, da controvertida política do "Porta-Níquel Família".

Mais de 5 milhões de eleitores bósnios, ou seja, um colosso. Imaginem, 700 candidatos a deputado deverão dedicar seu tempo ao tal do “Porta-Níquel” e outras importantes questões. E, atenção!, 3 (eu disse três) candidatos de todos os sexos para presidente. Acho que alguns primeiros-ministros também sorriem para as objetivas bósnias.

Ninguém sabe direito. Tudo isso graças a uma Constituição maciça, brava pra valer, perto da qual a nossa é, pinto – e tomem piu-piu. Agora é esperar para ver se a Bósnia, uma vez apurados os votos, se aproximará mais das Nações Unidas, da Otan, do Bric, do Brac, ou do Broc.

E, não resta dúvida, nestes dias globalizados, aguardar, em versão bósnia atualizada, o ubíquo editorial: “Lição das Urnas.”