Portugal marca os cem anos da República e lembra influência brasileira

Multidão reunida para participar da celebração do centenário da República em Lisboa (AFP)
Image caption Portugal comemora os cem anos da proclamação da República

Portugal comemora nesta terça-feira os cem anos da proclamação da República, um movimento influenciado pelo Brasil.

"Houve muita correspondência entre os republicanos portugueses e os brasileiros", conta o historiador António Reis.

Portugal foi a terceira república da Europa, depois da Suíça e da França. Segundo Reis, o exemplo brasileiro ajudou a decidir a realização da revolução republicana.

"Pouca gente esperava que a República fosse implantada em Portugal. Era um país com 98% de católicos, 82% de agricultores e 75% de analfabetos", afirmou o historiador, explicando a razão de o Brasil ter sido considerado um exemplo.

O primeiro país a ter relações com o novo governo foi o Brasil. Durante a revolução, Hermes da Fonseca – oitavo presidente do Brasil, que havia sido eleito mas ainda não tinha tomado posse – estava em Portugal. Ele recebeu uma delegação dos republicanos no navio onde se encontrava.

A Presidência de Portugal também já foi ocupada por um brasileiro: o terceiro presidente do país, Bernardino Machado – que governou o país de agosto de 1915 até dezembro de 1917 – nasceu no Rio de Janeiro. Ele foi deposto por um golpe de Estado.

Aliança

Segundo Reis, a força do movimento republicano foi o resultado da degradação da monarquia.

Em 1891, o país entrou em falência, deixando de pagar a dívida externa, o que gerou um grande empobrecimento. Um dos principais bancos do país, o Crédito Predial, fechou, provocando grandes prejuízos e revolta na população.

Segundo Francisco Sarsfield Cabral, presidente da Comissão de Comemoração do Centenário da República, um ano antes, em 1890, um ultimato inglês para que Portugal abandonasse as pretensões para que seus territórios coloniais na África unissem Angola e Moçambique provocou um sentimento de humilhação nacional.

Os ingleses pretendiam ter colônias do Cairo, no Egito, até a Cidade do Cabo, na África do Sul, uma faixa que percorria todo o continente.

A desonra do país veio quando os ingleses posicionaram barcos de guerra no Tejo, obrigando o governo português a desistir da pretensão.

Nacionalistas chegaram a colocar uma venda na principal estátua de Camões de Lisboa, para que ele não "visse" a vergonha nacional.

Uma das estrofes do hino republicano do país dizia "contra os bretões marchar, marchar", que depois foi substituída pelo verso "contra os canhões marchar, marchar".

Com um governo monárquico cada vez mais autocrático e dependente do rei, cujos poderes foram aumentando, foi se formando uma aliança que incluía políticos, profissionais liberais, quadros superiores do funcionalismo público, intelectuais e operários.

A partir de 1906, outro grupo de descontentes juntou-se ao movimento. Atendendo a lobbies, o governo proibiu a plantação de novas vinhas fora da região do Douro – onde se produz o vinho do Porto. Os grande proprietários rurais do resto do país juntaram-se aos republicanos e foi um deles, José Relvas, que fez a proclamação do novo regime.

Vitória por engano

Quando eclodiu a revolução, havia poucas tropas favoráveis à queda do regime. Vários regimentos que deveriam se revoltar em 4 de outubro não entraram no movimento.

Segundo António Reis, eram cerca de 400 amotinados, barricados no alto da Avenida da Liberdade, contra 8.000 soldados e membros da guarda leais ao rei.

Acreditando que o movimento estava derrotado, o comandante militar da revolução, o vice-almirante Cândido dos Reis, se suicidou em 4 de outubro.

A vitória dos republicanos ocorreu por causa do embaixador da Alemanha. Preocupado com o que poderia acontecer aos cidadãos de seu país, ele foi negociar uma trégua, para que os alemães pudessem sair da cidade.

Falou primeiro com o comando monárquico, na parte de baixo da avenida, e depois subiu até o comando revoltoso.

Como sinal de armistício, levava uma bandeira branca. A população, vendo um grupo de pessoas levando uma bandeira branca em direção aos revoltosos, acreditou que era a rendição e saiu para a rua comemorando e gritando "Viva a República!".

Pouca democracia

O novo poder foi marcado pela instabilidade. Até a ditadura de 1926, o país teve 45 governos em 15 anos e meio.

Não houve liberdade de imprensa e o direito de voto foi restringido.

Além de os analfabetos não poderem votar, as mulheres deixaram de poder exercer o direito – a alegação era que seriam facilmente manipuladas pelos padres, e o novo regime tinha uma posição anticlerical.

De 900 mil eleitores em 1909, o país passou a ter apenas 400 mil em 1913. Também houve poucos períodos de liberdade de imprensa.

O enfraquecimento do regime também ocorreu devido à entrada do país na Primeira Guerra Mundial.

Sob a alegação que era necessário defender as colônias, foram enviados 50 mil soldados para combater no norte da Europa, mal equipados e sem formação – grande parte deles camponeses, grupo que não tinha apoiado a revolta. Morreram 8.000 e muitos voltaram com ferimentos de guerra.

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