A fervura do paladino

Lucas Mendes em ilustração de Baptistão.

Carl Paladino ferve na chaleira do Tea Party. Há dois meses, era um milionário só conhecido na cidade dele, Buffalo, e na corrupta e provinciana capital do Estado de Nova York, Albany. Na cidade de Nova York e no resto do Estado era Carl ninguém.

Contra todas as previsões e pesquisas e com o apoio do Tea Party ele ganhou a primária do Partido Republicano para disputar o governo do Estado. Ganhou no grito com a promessa de limpar a Câmara e o Senado estaduais na porrada, com um taco de beisebol.

Bem que os políticos merecem. Paladino lembra aquele âncora do filme Rede de Intrigas, louco de raiva, que vai gritar "não aguento mais" na janela e leva a audiência junto. Aos 62 anos, grisalho, magro, energético e vulgar, Paladino tem pinta, boa, de paladino.

Na frente das câmeras, ele ameaçou matar um repórter se o fotógrafo do jornal voltasse à porta da casa dele para fotografar sua filha ilegitima, Sarah.

O vídeo faz sucesso no YouTube, mas Paladino tem outros “hits” na internet, entre eles uma coleção de e-mails racistas e pornográficos, que mandou para amigos. Um deles mostra uma mulher numa relação sexual com um cavalo. Outros mostram o presidente Obama como um africano primitivo ou com roupa de sambista na Casa Branca.

O candidato tem uma fortuna de US$ 150 milhões cavada em imóveis e lojas, mas começou do nada. O pai, um italiano que mudou de nome porque se sentia discriminado, era um modesto fiscal do departamento de águas em Buffalo que conseguiu mandar o filho para a faculdade.

Paladino enriqueceu aos poucos, com manipulação e intimidação de políticos corruptos. Ele, que se beneficiou de isenções de impostos e favores oficiais, hoje faz campanha com promessas de limpeza e acusações alopradas, entre elas a de que Andrew Cuomo, seu adversário democrata, traía a mulher quando era casado. Quando os repórteres pediram provas, ele disse que vai "tirar da caixa" na hora certa.

Paladino tem um lado sentimental e decente. A filha Sarah veio de um affair com uma ex- funcionária. Ele reconheceu e sustentou Sarah, mas não tinha coragem de contar à mulher e admitir a criança em casa.

O filho mais velho, adorado por Paladino, tinha um problema de alcoolismo e drogas e propôs ao pai: "você conta a minha mãe sobre Sarah e eu me interno numa clinica de reabilitação". Os dois cumpriram as promessas e o filho estava sóbrio e sem drogas quando perdeu o controle do carro, bateu numa árvore e morreu. O pai ficou devastado, mas poucos dias depois estava em campanha com apoio do Tea Party.

O candidato que ele derrotou na primária desistiu de concorrer como independente e Paladino recebeu o endosso do Partido Republicano.

Nova York teve três governadores nos últimos quatro anos. O segundo renunciou envolvido num escândalo com prostitutas. O atual é negro, cego e acusado de vários abusos. Os deputados e senadores estaduais estão entre os mais corruptos e ineficientes do país.

Este cenário tiririca-novelesco é terreno fértil para fenômenos absurdos como o Tea Party e seus candidatos radicais. A maioria não tem nenhuma experiência política ou executiva, muitos têm fichas sujas. Fazem promessas delirantes de reduzir despesas, cortar impostos dos ricos, reduzir gastos em saúde, educação, programas sociais, liberar armas e perseguir imigrantes ilegais.

A arenga deles é incompreensível e contraditória, mas suas campanhas ricas são financiadas por conservadores bilionários e indústrias que se sentem ameaçadas pelos programas de Barack Obama, como a de energia, e pela Wall Street intimidada pelos novos regulamentos.

Estes paladinos quixotescos, tiriricas alfabetizados, estão na liderança das pesquisas e, com eles, os republicanos podem conquistar governanças, assumir o controle da Câmara e, menos provável mas possível, do Senado nas eleições de novembro.

Se você espremer, espremer e espremer de novo, sai um suco anti-Obama, um liberal como Clinton, negro. Só pode ser comunista, socialista, nazista colonialista, anti-colonialista e outras idiotices que aparecem nos cartazes das manifestações do Tea Party.

Contrariando as pesquisas, eu ponho a mão no fogo: a menos que aconteça uma surpresa que piore o que já está ruim, esta fervura da chaleira de Paladino e do Tea Party vai entrar numa fria em novembro.

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