Mantega quer retomada de políticas fiscais para resolver 'guerra cambial'

Guido Mantega
Image caption Mantega levará proposta ao Comitê Monetário e Financeiro Internacional

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse nesta sexta-feira que vai propor a retomada das políticas fiscais nas economias avançadas, como forma de resolver a "guerra cambial" em curso entre os países.

A proposta será levada neste sábado à reunião do Comitê Monetário e Financeiro Internacional (IMFC, na sigla em inglês, órgão que tem o papel de assessorar do conselho de governadores do FMI e recomendar a adoção de políticas), em Washington.

"Temos de recolocar na agenda, e eu vou propor isso amanhã (neste sábado), recolocar na agenda do G20 (grupo das principais economias mais avançadas e em desenvolvimento) a questão da recuperação das economias avançadas. Recuperação a partir dos seus próprios mercados", disse o ministro, em entrevista coletiva durante a reunião do FMI e do Banco Mundial.

Pressionados por altos níveis de dívida pública e déficits orçamentários, diversos países avançados começaram a retirar as políticas de estímulo adotadas durante o auge da crise econômica mundial.

Muitos países têm sido criticados por manter suas moedas artificialmente desvalorizadas e, assim, obter vantagens no comércio internacional, já que suas exportações se tornam mais baratas e competitivas. De acordo com Mantega, as políticas monetárias expansivas adotadas por muitos países avançados são uma estratégia de recuperação que usa os mercados alheios em vez da demanda doméstica, uma política do "salve-se quem puder". "É uma estratégia de recuperação para ocupar os mercados dos países dinâmicos, os países emergentes que têm mercados", disse o ministro. 'Guerra não-declarada' A expressão "guerra cambial" foi usada por Mantega na semana passada e acabou ganhando atenção mundial. Na ocasião, o ministro afirmava que, ao permitir a desvalorização de suas moedas, países como Japão e Estados Unidos acabavam roubando mercados de economias com bom desempenho, como a brasileira. As maiores críticas têm sido direcionadas à China, alvo de pressão principalmente por parte dos Estados Unidos para permitir a valorização de sua moeda, o yuan, frente ao dólar. Nesta semana, o Brasil anunciou o aumento da alíquota do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) para aplicações de estrangeiros no mercado de renda fixa, em uma tentativa de conter o alto fluxo de capital estrangeiro que tem entrado no país e, assim, evitar maior valorização do real frente ao dólar. "Alguns dias atrás eu coloquei a existência de uma guerra cambial, que talvez chocou um pouco as pessoas, mas na verdade eu estava falando algo que de fato está ocorrendo, mas que não era reconhecido pelos demais atores econômicos", disse. "E hoje parece que todos estão reconhecendo que de fato existe um conflito cambial. Eu poderia dizer uma guerra cambial não declarada, e que agora vem à tona." Crise Segundo Mantega, os desequilíbrios cambiais demonstram que a crise econômica mundial não foi adequadamente resolvida, com a recuperação ainda lenta em muitos países avançados e altas taxas de desemprego. "O que temos por trás disso (da chamada guerra cambial) é que as políticas de recuperação nos países avançados não foram suficientes", disse. "Os países emergentes estão se recuperando muito bem, estão com taxas de crescimento elevado, mas os países avançados estão com taxas muito baixas de crescimento", afirmou. Para o ministro, as políticas de estímulo fiscal adotadas por muitos países avançados durante o auge da crise foram desativadas cedo demais. "Isso é um subproduto da lenta retomada do crescimento nos países avançados. Os países avançados tomaram uma série de medidas para a retomada da atividade econômica, mas não foram bem-sucedidos. A verdade é esta", disse. A recomendação de retomada do estímulo fiscal, segundo o ministro, vale não apenas para os países avançados, mas também para os emergentes muito dependentes de exportações (caso da China). Câmbio flutuante De acordo com Mantega, as ações das economias avançadas e de alguns emergentes estão distorcendo o regime cambial flutuante, o que deverá trazer consequências negativas para todos os países. "O regime de câmbio flutuante, que eu considero o melhor regime, vem sendo deturpado, distorcido, por intervenções explícitas ou implícitas no câmbio", afirmou. "Ou você tem livre flutuação, ou então todo mundo vai intervir. O que não pode é alguns respeitarem a livre flutuação, como é o caso do Brasil, que respeita bastante, e outros fazerem intervenção", afirmou. Segundo Mantega, como o dólar é uma das moedas âncora da economia mundial, sua desvalorização causa uma série de problemas. "Que são agravados pelo fato de que moedas asiáticas estão atreladas ao dólar, e portanto desvalorizam junto com o dólar, e causam um problema para todas as demais economias", afirmou. Acordo de Plaza O ministro disse que o FMI e o G20 são os fóruns ideais para abordar essa questão e buscar uma ação coordenada entre os países. "Nós podemos coordenar isso no G20. Não é fácil resolver esse problema a nível individual, porque cada um vai procurar defender os seus interesses e vai agravando a situação", disse. Pela manhã, Mantega já havia manifestado otimismo sobre a possibilidade de um acordo global para resolver a questão já na reunião do G20, marcada para novembro, na Coreia do Sul. Um dos temas da discussão na reunião de Washington é a possibilidade de se chegar a um acordo nos moldes do Acordo de Plaza, fechado em 1985, no Hotel Plaza, em Nova York, entre Estados Unidos, Japão, Alemanha, França e Grã-Bretanha, para promover uma desvalorização do dólar, que havia chegado a um valor recorde na época. "Acho que podemos atingir um acordo sobre como tratar essa questão cambial no encontro do G20 (marcado para novembro, na Coreia do Sul). Nós podemos começar a discussão neste fim de semana, mas acho que no encontro do G20 nós podemos chegar a um acordo, algo como o Acordo de Plaza", afirmou. No entanto, Mantega ressaltou que a situação atual é diferente da de 1985. "Nós temos que achar a resposta para a situação específica de hoje."

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