Os mineiros e seus parceiros sexuais

Ivan Lessa em ilustração de Baptistão

Eu ia falar do assunto do momento: o milagre tecnológico e humano do resgate dos 33 mineiros chilenos. Iria, sem dúvida, chover no dilúvio, uma vez que todo mundo acompanhou a operação salvadora, com razão comovidos. Outros com a atenção voltada para os aspectos técnicos, e até mesmo políticos, da empreitada redentora.

O futuro a eles, mineiros chilenos, pertence. Tudo que lhes acontecer de bom é justo e merecido. Posso não saber o que seja trabalhar em minas de seja lá o que for debaixo da terra, mas vivo num país o Reino Unido em que os mineiros desempenharam um importantíssimo papel.

A literatura sobre o assunto é rica como o foram um dia suas minas. O próprio Partido Trabalhista, ou o que dele resta, é prova viva de uma sindicalização que deveria ter vindo muitos anos antes do que veio. A sabedoria popular é de que foi Margaret Thatcher quem acabou de vez com os mineiros e seu poderoso sindicato. É o que dizem os historiadores profissionais em seus tomos eruditos. Acredito que, nas escolas, esteja inclusive nas cartilhas. Mineiro, enfim, por aqui, passou a ser esse cacoete que usamos muito: “já era”. A isso chamam de modernidade: o esquecimento de heróis.

Volto ao começo destas linhas e sou obrigado a confessar que cada vez que eu digitei – e cada vez que digito – as palavras mineiro ou minas, o que me vem à mente são nossos mineiros, é nossa Minas Gerais. Não se escapa impunemente de uma terra e sua história.

Regozijo com o justamente orgulhoso povo chileno, e seus líderes. Fico, agora, à espera dos artigos bem articulados, os livros livrescos, talvez até os filmes filmados (contanto que não o façam com um pernilongo de terno e gravata que conheço de trailers, tal de Shia Leboeuf). O mundo pode estar indo para o beleléu, mas ao menos 33 mineiros chilenos escaparam, ao menos momentaneamente, à hecatombe. Louvemo-los.

Volto ao ponto onde fui grilado: e nossos mineiros? Quem os salvará? Onde as brocas e as escavações miraculosas que os tirarão da escuridão e do isolamento do estado que Noel Rosa disse “dar leite” como “São Paulo dá café”?

Que óculos escuros os protegerá? Onde seus familiares empapados de lágrimas? Há rampas em Governador Valadares? A NASA enviou psicólogos para Juiz de Fora? Belo Horizonte terá cobertura 24 horas por dia na televisão mundial? Ouro Preto será indenizada por incompetência criminosa? Caxambu, Itamonte e Lima Duarte terão quem por elas se interesse e cuide? Um segundo turno eleitoral elucidará estas questões? Que eu saiba, até agora, nada disso foi abordado a sério por candidato idôneo. Haverá tempo? Gêneros e medicamentos aguentarão até 2011?

Tomado de assalto, como um idiota na fila da caixa automática do banco, fico a cismar, a matutar.

Súbito, numa notícia publicada com destaque pela grande imprensa brasileira, vejo – e perdão pelo paralelo de mau gosto – uma pequena luz no fim do túnel. Lá está a manchete alvissareira: “Estudo revela que o Brasil é o país em que homens e mulheres têm o maior número de parceiros sexuais da América Latina.”

E ainda, para Conselheiro Lafaiete e Itanhandu regozijarem: “Brasileiros são campeões de infidelidade e disfunção sexual.” Que Lambari não se preocupe: nosso país registra também “o maior número de homossexuais e bissexuais”. Itaverava, tudo bem: sempre segundo o estudo, “as brasileiras são as que mais usam os vibradores”.

Todo esse rico cascalho foi peneirado do estudo realizado pelo Instituto Tendencias Digitales, sob encomenda do Grupo Diários América (GDA), sendo que 13.349 pessoas foram pesquisadas pela internet.

Embora não especifiquem, creio que boa parte dos 13 mil sejam mineiros ou, ao menos, tenham passados alguns bonés dias em nossa – viva ela! – Minas Gerais, sabendo pois do que falam. A vida pode ser dura, mas, cá entre nós, que tem lá algumas vantagens, ah, isso tem.