'Sou mais humano e amoroso agora', diz mineiro 'corredor'

Edison Pena (Foto Adam Patterson/BBC)
Image caption Edison Pena, conhecido como 'o corredor', disse que sua motivação era o desejo de ver a luz do sol novamente

O mineiro chileno Edison Pena disse ter emergido dos escombros da mina San José "mais humano" e "mais amoroso" do que o homem que desceu por um túnel nas encostas de uma montanha para um turno de rotina.

Em depoimento à BBC após o dramático resgate da semana passada, o mineiro de 34 anos falou com franqueza da terrível realidade vivida pelo grupo de 33 mineiros, que passou 69 dias enterrado, sob condições extremas, 700 metros abaixo da superfície.

Conhecido como "o corredor", Pena - talvez um dos mais traumatizados do grupo - deu continuidade, pessoalmente, a uma série de entrevistas à BBC que se iniciaram por meio de cartas, quando ele ainda estava soterrado.

"Por que não estou morto? Porque não é justo morrer. Por que eu deveria morrer? Por que eu deveria morrer?", perguntou o mineiro.

"Você tem alguma ideia de como é viver naquela escuridão? Você sabe? Eu não queria ficar lá. Por que tenho de ficar preso aqui? Não quero ficar preso aqui. Quero viver. Quero sair daqui", disse, relembrando os pensamentos que passaram por sua mente inúmeras vezes enquanto ficou confinado.

As primeiras entrevistas à BBC, por carta, foram vitais para o mineiro durante os dias de escuridão. Nelas, ele compartilhou com a equipe de jornalistas os detalhes da vida no subterrâneo enquanto equipes de resgate trabalhavam nervosamente para libertar os homens.

Em suas notas, transportadas pela mesma perfuração estreita por onde se enviavam suprimentos, ele contou que odiava a montanha e queria destruí-la, que corria e testava seu corpo fisicamente para tentar vencer, mentalmente, a parede de rocha que o confinava como uma tumba.

A equipe da BBC, por sua vez, respondia tentando encorajá-lo da melhor forma possível. "Destrua essa montanha. Odeie a montanha. Derrube-a com sua fúria", dizia a resposta ao mineiro.

Fome

Durante a entrevista, fica claro que o sentimento de amargura de Pena ante tudo o que sofreu é palpável e beira o delírio.

Image caption Edison Pena puxava paletas de madeira como exercício

A fome intensa que sentiu durante os primeiros dias de aprisionamento - as costelas ainda visíveis na altura do peito - parece ser o que mais o assombra hoje.

"Acho que, de hoje em diante, nenhum alimento será desperdiçado na minha casa. Quero dar uma grande mensagem em relação à fome no mundo. Eu nunca pensei em dar uma entrevista, mas agora acho que Deus estava nos protegendo, ele estava me protegendo, e com humildade eu não gostaria de deixar um grão de arroz ser desperdiçado em casa, por que isso é o que senti, aquela fome, e passar por aquilo novamente é demais para mim".

"É muito duro voltar da morte, é muito duro. Agora eu só quero viver, eu quero viver".

Os mineiros terão de se submeter a exames médicos regulares durante os próximos seis meses. O objetivo desses exames é ajudá-los a recuperar sua saúde e guiá-los durante um difícil período psicológico.

Os médicos se preocupam particularmente com doenças associadas ao estresse.

A cultura associada ao setor de mineração, onde trabalhadores são tidos como "durões", poderá ajudar alguns dos mineiros chilenos a superar seu trauma.

Psicólogos alertam, no entanto, para a possibilidade de que, justamente por terem a reputação de durões, eles deixem de pedir ajuda se precisarem de apoio emocional.

Image caption Edison Pena corria e fazia exercícios nos túneis

Segundo os psicólogos, é possível que alguns dos homens vivenciem ansiedade, flashbacks (quando lembranças de traumas vividos no passado voltam a assombrar a pessoa no presente) e outros sintomas do transtorno de estresse pós-traumático.

'Fique Vivo'

Falando com franqueza sobre os tormentos vividos, Pena disse que o apoio oferecido a ele pela parceira Angélica e pelas cartas trocadas com as pessoas do lado de fora o ajudaram a suportar o sofrimento.

As palavras escritas - ele disse - lhe deram conforto na escuridão. "Fique vivo", ele dizia a si mesmo.

Em uma série de fotografias tiradas com uma câmera enviada a Pena pela BBC, o mineiro revelou um pouco da vida que viveu na escuridão.

Diferentemente dos outros homens soterrados, que se voltaram para Deus em busca de apoio, Pena procurou salvação nos exercícios físicos. As fotos mostram o que fez para vencer seus demônios.

Pena corria cerca de oito quilômetros por dia na mina úmida, sob temperaturas em torno de 40 ºC. E para melhorar seus níveis de estamina (um estimulante natural do organismo) ele passou a arrastar uma caixa de madeira quando corria.

"Essas fotos são testemunhos, quero que todos entendam isso. Não quero me mostrar, não quero ficar famoso correndo. Acho que correr na superfície de novo, e ver a praia, acho que nada se compara a isso".

A reputação de Pena, como corredor, e seu amor por Elvis Presley, resultaram em convites para que ele participe da maratona de Nova York em novembro e visite a mansão de Presley no Tennessee.

Apesar de tudo o que passou, o mineiro diz que vê um futuro melhor para si mesmo e sua família.

"Agora existe luz, antes não havia nenhuma. Lá, eu tinha de andar com uma lanterna. Agora, estou feliz em estar de volta ao meu país, e com esta luz. Eu achava que não ia voltar, mas voltei e estou muito feliz".

"Sou mais humano agora. Amo mais as pessoas, acredito em tocar as pessoas. Eu me amo muito mais".

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