Campanha de Serra vê 'respaldo institucional à baixaria'

Alexandre Kuro/Wikimedia Commons
Image caption Soninha Francine diz que internet é terreno fértil para baixarias

Coordenadora de internet da campanha de José Serra (PSDB) à Presidência, a ex-vereadora Soninha Francine (PPS) diz que a internet sempre foi fértil para “baixarias”, o que fica mais acentuado em um momento “beligerante” como a reta final de uma campanha.

Segundo ela, esse clima ganha força quando é “respaldado” pela campanha de um candidato. “E eu acuso a campanha do governo de respaldar a baixaria”, diz.

“Tem vídeo no blog da Dilma dizendo que o Serra não gosta de nordestino, que não gosta de pobre. Eles permitem que as pessoas digam barbaridades nos seus canais oficiais e eles endossam. Isso dá uma musculatura para a baixaria que não tem igual”, completa.

BBC Brasil - A quantidade de mensagens da militância, nos dois lados, tem aumentado de forma significativa, inclusive com um teor ainda mais acusatório... Está havendo um exagero?

Soninha Francine – No ano passado eu já temia isso. As pessoas me perguntavam com otimismo: “ah, agora nessa eleição a gente vai poder usar a internet com menos restrições, de acordo com a legislação...”. E eu sempre falei que eu temia muito pelo fato de a internet ser um terreno muito fértil para a baixaria. Como se percebe em qualquer outro assunto. Discutir futebol na internet é mais violento do que na arquibancada. Na internet todo mundo parece torcedor fanático. Isso já foi amplamente discutido, analisado... A questão do anonimato, o efeito que isso produz nas pessoas, a despersonalização. E quando você transfere isso para um ambiente que é beligerante, não porque eu queira, que é a política partidária, isso se torna ainda mais acirrado. Tudo que está acontecendo de ruim eu já esperava.

BBC Brasil - Tem algum lado positivo?

Soninha – Sim, e eu me surpreendi com o lado bom. Existem pessoas que estão se engajando na campanha eleitoral pela internet que não são os militantes tradicionais, ou nem são os que a gente chamaria de internautas tradicionais. A graça para mim, na campanha do Serra, é ver um outro público, pessoas muito mais velhas, que não são dos grandes centros urbanos, profissionais de todos os perfis e essas pessoas se engajando na campanha pela internet. E aí só a internet mesmo. Essas pessoas nunca iam se encontrar num comício, por exemplo. A conexão entre as pessoas, esse tráfego em duas mãos... Elas também me contam coisas que eu não poderia saber de outra maneira. Nem com mil repórteres a gente conseguiria produzir tanto conteúdo assim.

BBC Brasil - Mas na prática, no dia-a-dia da campanha, esse público acaba sendo engolido pela militância e por uma enxurrada de e-mails de tom acusatório...

Soninha – É verdade. Mas aí, o meu registro é o seguinte: a baixaria existe inevitavelmente. Agora, a baixaria ganha muita força quando ela tem respaldo institucional. E eu acuso a campanha do governo de respaldar a baixaria.

BBC Brasil - De que forma?

Soninha – Acabei de ouvir um comercial no rádio dizendo que o Serra é dos bem ricos, dos bem relacionados. A candidata diz isso na TV, o presidente diz isso no palanque. “Eles não gostam de pobre, só gostam dos ricos”, dizem. Tem vídeo no blog da Dilma dizendo que o Serra não gosta de nordestino, que não gosta de pobre e que vai acabar com o Bolsa Família. Se alguém mandar um comentário para o meu site dizendo “temos que votar no Serra para derrotar essa terrorista”, esse comentário não será publicado. E eles permitem que as pessoas digam barbaridades nos seus canais oficiais e eles endossam. Isso dá uma musculatura para a baixaria que não tem igual.

BBC Brasil - É papel dos coordenadores de campanha tentar filtrar isso?

Soninha - Claro que sim. Mesmo você tentando filtrar, você já não consegue... A quantidade de vezes que eu já respondi “esse e-mail é falso”, “não espalha isso, que não tem procedência...”, foram inúmeras vezes. Os eleitores vêm até nós para checar informações falsas e eu digo que não tem procedência. O que interessa discutir é a incoerência, a corrupção. Não é que não possa se criticar o outro lado. A gente tem o direito de criticar, de denunciar, mas quando você diz que o Serra não gosta de pobre e de nordestino, isso é tão sórdido... Não existem dados, gráfico, que consigam desmentir um negócio desse. Não dá conta de fazer a corrente contrária. É um pouco demais as pessoas se queixarem da guerra suja e subterrânea quando não é simplesmente a infantaria, os voluntários malucos, mas as autoridades.

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