Jumentos e mulas

Lucas Mendes em ilustração de Baptistão.

Nos próximos sete dias vou perder uma eleição no Brasil e ganhar várias em Nova York, mas não vou conseguir salvar o partido de Barack Obama.

O Congresso vai dar uma guinada para a direita. Na marcha da história é a vez dos democratas sofrerem a correção de curso, mas desconfio desta expectativa de massacre republicano no Congresso e do sucesso dos candidatos extremistas do Tea Party, os teapartistas.

O movimento apoia alguns dos piores candidatos, entre eles três patetas, ou, menos gentilmente, três mulas políticas: Chistine O'Donnell, para o Senado em Delaware, Sharon Angle para o Senado em Nevada e Jan Brewer para governadora do Arizona.

Chistine O'Donnel disse na televisão que fazia bruxaria na universidade, mas tentou corrigir com um comercial que começava "não sou uma bruxa. Eu sou você". Quem precisa anunciar que não é bruxa só pode ser bruxa. Pelo currículo oficial ela é uma especialista em Constituição, mas numa palestra para estudantes de direito ela disse que a Constituição não prevê a separação de estado e igreja. A plateia veio abaixo.

Jan Brewer, a governadora do Arizona oportunista na perseguição aos imigrantes ilegais, num discurso falou sobre cabeças decepadas nas fazendas do Estado pelos traficantes de drogas e clandestinos. Quando foi perguntada sobre o assunto num debate ela teve um branco. Ficou muda com os olhos arregalados durante 9 segundos.

Na televisão parecem horas. Deu uma resposta que não tinha nada a ver com a pergunta, cheia de erros gramaticais. Depois, a exemplo da bruxa de Delaware, cancelou os debates e parou de falar com a imprensa.

Sharon Angle, de Nevada, ameaça derrubar o líder democrata no Senado, Harry Read uma humilhação para o partido, mas Sharon é o melhor cabo eleitoral do senador. Ela fala em revolução armada, cita Pinochet como autor de uma privatização exemplar na aposentadoria e ameaçou processar o adversário quando ele colocou as promessas dela num comercial. Como Christine O'Donnell e Jan Brewer, agora ela só fala com a imprensa conservadora, em especial a rede Fox.

Foi uma campanha recordista em dólares e negatividade, mas as mulas republicanas estão bem acompanhadas de jumentos democratas. O candidato democrata a governador de Rhode Island, Frank Caprio, deu o maior dos coices quando disse ao presidente Obama que enfiasse o apoio dele naquele lugar.

Estava furioso e ressentido porque o presidente decidiu colocar amizade e gratidão acima de lealdade partidária. Obama devia um favor ao candidato independente no páreo e para agradecer decidiu não se meter na disputa.

Em asnice, ele perdeu para o candidato republicano a governador de Nova York, Carl Paladino que, diante das câmeras, ameaçou matar um repórter, depois insultou os gays em Nova York e multiplicou o insulto quando tentou dizer que não disse o que disse.

Nestas eleições intermediárias, o partido que está na Casa Branca quase sempre perde poder porque o primeiro mandato desgasta e a economia, em fraca recuperação depois da pior recessão na história (não confundir com depressão), esvaziou o capital político do presidente.

Com um movimento que não oferece nenhuma proposta concreta e um partido campeão do não e da obstrução - 420 leis aprovadas na Câmara morreram no Senado - o Partido Republicano soube explorar genialmente a raiva e a frustração americanas. “Ignorância é chique” escreveu Maureen Dowd, uma das mais contundentes colunistas americanas. Os números confirmam.

Os Estados Unidos estão em sexto lugar em competitividade, mas em 40º na capacidade de mudanças na última década; em 11º entre países industrializados que formaram estudantes secundários na faixa dos 25 aos 34 anos, 16º entre os que se diplomaram em universidade, 22º em acesso de banda larga na internet, 29º entre telefones celulares para cada 100 pessoas. Há vários outros números decepcionantes.

Mas há sinais de esperança. Graças, em parte, ao deboche e à inteligência dos humoristas da televisão, muitos americanos descobriram que a mula teapartista é manca e vai ficar ainda mais claudicante num comício para “restaurar a sanidade politica”, promovido por Jon Stewart e Steve Colbert, do Comedy Center, neste fim de semana em Washington.

O Tea Party é um movimento de pernas curtas. Não dá pé.

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