Eleições 2010

Para analistas, vitória de Dilma confirma sucesso de aposta de Lula

Lula e Dilma durante a campanha

Do ponto de vista eleitoral, Dilma não seria viável sozinha, diz professor

Em junho deste ano, durante o lançamento oficial da candidatura de Dilma Rousseff ao Palácio do Planalto, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse, em seu discurso, que havia "mudado de nome" para aparecer como "Dilma" na urna eletrônica.

Na avaliação de analistas políticos, poucas frases do presidente refletem tão bem a tentativa de transferir votos para sua ex-ministra – uma aposta que, segundo eles, "deu certo", como mostram os resultados das urnas neste domingo.

"Antes de mais nada, o voto na Dilma é resultado de uma aceitação da indicação do Lula", diz Fábio Wanderley Reis, cientista político da Universidade Federal de Minas Gerais.

Para ele, a indicação e o apoio do presidente foram mais do que uma "simples contribuição" à eleição de Dilma Rousseff, mas sim sua "maior explicação".

"Ainda que ela tenha méritos como gestora e tenha sido colocada à frente dos principais projetos do governo, do ponto de vista eleitoral ela jamais se viabilizaria sozinha", diz o professor.

O presidente Lula chega à fase final de seu governo com uma aprovação recorde: 82% dos entrevistados pelo Datafolha o consideram "bom ou ótimo" governante.

Especialistas em pesquisa argumentam que ainda é cedo para análises aprofundadas sobre como ocorreu a transferência de votos de Lula para Dilma, mas arriscam um palpite: numericamente, pode-se dizer que a candidata herdou os que consideram Lula "ótimo" (36%) e boa parte dos que descrevem o presidente como "bom" (45%).

"O nível de aprovação que ele acabou alcançando é absolutamente inédito. Isso, sem dúvida, é parte decisiva para o êxito da candidatura Dilma", diz o professor da UFMG.

Preferida

O processo que culminou na eleição de Dilma Rousseff à Presidência começou, de fato, há cerca de três anos, quando Lula definiu, nos bastidores, que ela deveria ser sua sucessora.

De uma lista de possíveis nomes que incluía Ciro Gomes e Marta Suplicy, o presidente ficou com Dilma.

Em novembro de 2007, a então ministra da Casa Civil foi a escolhida de Lula para substitui-lo durante o anúncio das reservas do pré-sal, uma das bandeiras do atual governo.

Muitos analistas apontam esse momento como um "marco inicial" no processo de transferência de votos. Naquela época, Dilma tinha apenas 2% das intenções de voto, segundo o Datafolha.

A partir daí, a ministra passou a figurar ao lado do presidente nos principais eventos, intensificando também sua presença na inauguração de obras por todo o país.

Campanha

Mas foi no último ano, com a proximidade das eleições, que Dilma passou a ser mais identificada com Lula, na visão do grande eleitorado.

A estratégia, desde o início, foi seguir a tese da transferência de votos, inclusive com o presidente mencionando, ainda que indiretamente, que sua ministra seria a pessoa "mais capacitada" para sucedê-lo.

Há um ano, a parcela dos que não conheciam Dilma ou nunca tinham ouvido falar dela era de 13%, segundo o Instituto Sensus. Outros 34% responderam que não votariam na candidata "de jeito nenhum".

Os programas eleitorais gratuitos e os comícios de Dilma, ambos com a constante presença de Lula, ajudaram a resolver tanto o problema do desconhecimento como da rejeição à candidata do PT.

Na avaliação de Reis, essa participação do presidente na campanha de Dilma não chegou a ser ostensiva, mas sim um fato "natural" do processo eleitoral.

"Não faz sentido dizer que o presidente extrapolou. Entendo como legítimo que um presidente queira fazer seu sucessor. É parte do jogo", diz o professor da UFMG.

Lastro

Na avaliação do cientista político Fabiano Santos, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, Dilma foi beneficiada não apenas pela popularidade do presidente, mas também pela situação econômica do país.

"O eleitor não segue uma sugestão de voto se não houver um lastro, um bom argumento. Lula conseguiu votos para Dilma também porque o país ia bem", diz o professor da Uerj.

Segundo Santos, é "difícil dissociar" o que é efeito da popularidade de Lula dos ganhos que o país registrou no período.

"É ainda difícil saber ao certo se o eleitor da Dilma estava votando no Lula ou nas políticas do governo", acrescenta.

Para o cientista político, seria "equivocado" retirar totalmente o mérito da candidata Dilma Rousseff, que, para ele, "foi muito bem durante a campanha".

"Ela encarnou muito bem o governo Lula e conseguiu transmitir sinceridade à população", avalia o professor da Uerj.

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