Como eu votei

Ivan Lessa em ilustração de Baptistão

Democracia, pálida deusa frágil! Fugidia, inquieta, és ao mesmo tempo muda e loquaz! A quanto nos obriga, ó Democracia! Eu deveria silenciar, mas é impossível. Quantas vezes mais terei eu a ventura de ir ter à tua presença pelos ventos soprado? Não, não. Eu conto tudo, revelo-me todo, suporto qualquer crítica da malícia dos outros. Vales bem a pena, Democracia!

Eu votei. Não posso dizer que de alma e coração, mas de curiosidade e vontade de participar do grande festim popular. Fui lá e carreguei o dedão nas teclas do computador. Visitei-vos, Democracia, visitei-vos! Perto de tua respiração perfumada fui ter com meu bafo pesado de velhusco.

Confesso que não foi bom nem mau. Apenas uma sensação beirando a bêbada de dever cumprido. De estar na companhia de outros milhões de semelhantes embriagados pelo momento como eu. Milhões? Que digo eu? 1 bilhão para ser preciso. 1 bilhão! Mais este vosso mísero criado.

Vira eu, nas folhas estampada, a notícia de que no prestigioso site – a que eu, bom brasileiro, só chamo de sítio – do YouTube a artista visual e canora que atende pelo nome artístico de Lady Gaga fora a primeira de sua estirpe, molde e raça a atingir a espantosa quantia de 1 bilhão de visitas.

Fiz questão de ir com os outros. Vox populi vox dei, diziam os antigos romanos cultos e eu não queria criar o desfeito de dar ares de quem assume indevida superioridade. Não, não. A massa que me compõe pede companhia, exige o calor de gentes outras, que, mesmo diferentes de mim, fazem parte deste universo diverso e misterioso por nós todos compartilhado.

Essa marca bilionária foi atingida no outro domingo, naquele em que não houve o segundo turno das eleições brasileiras. Ah, esses domingos que se descortinam sobre nós a pedir – não, a exigir! – uma escolha.

Eu escolhi e escolhi bem. Poderia ter ido com o segundo colocado nessas esotéricas eleições, Justin Bieber, que conta com 965 milhões de “visitas”, que é como, democrática, embora injustamente, chama a informática hodierna ao que, no meu léxico e entendimento existencial, é voto mesmo e voto dos bons. Sem brancuras e sem anulações. Lá, onde se exibem em glória e esplendor quem acha que merece, lá, no YouTube, é que estão as verdadeiras, as globais, eu diria mesmo universais, eleições.

Não bastasse, Lady Gaga tem ainda o mérito de possuir o segundo vídeo mais acessado do sítio mencionado. E acessei-o eu. Leva por nome – vejam a ironia – Bad Romance. Pudesse ser mau o aconchego amoroso de uma pessoa a pressionar um botão eleitoral. Esse “romance” recebeu 297 milhões de visitas na cabine indevassável das ambições e emoções de uma massa esplêndida e vigorosa de seres humanos de todas as raças e de todos os países.

Bieber, perdedor, embora merecedor de nosso carinho e respeito, mantém um recorde no YouTube. Sua música Baby constitui o vídeo mais assistido. Nada mais nada menos que 366 milhões de vezes. Por uma questão de disciplina partidária, não pus nem olhos nem ouvidos nesse “bebê”. Há que se ser sério, ocasionalmente. Na hora de visitar eleitoral e musicalmente alguém ou alguma coisa, por exemplo. Respeito os ditames do YouTube, pois entre seus 10 vídeos mais vistos – votados, não é mesmo? – seis são clipes de música.

Será uma coincidência que ontem, domingo, uma semana após a glorificação de Lady Gaga, foi o dia das bruxas, ou, como dizem agora, no Brasil, Raloim, e, por aqui, os preciosistas preferem Hallowe'en ou, em sua forma americana, que é a original, Halloween? Tenho minhas dúvidas, pois de dúvidas e entre dúvidas deve viver um homem. Menos há hora de optar por Lady Gaga. Ou, sendo magnânimo na vitória, Justin Bieber.