O tsunami e a marola

Lucas Mendes em ilustração de Baptistão.

O tsunami republicano poderia ter sido pior para os democratas. Muchas gracias, hermanos latinos.

Eles salvaram o líder do partido democrata, Harry Reid, candidato ao Senado pelo Estado de Nevada, ameaçado por Sharon Angle, uma das mais radicais e menos preparadas candidatas do Tea Party. Os latinos saíram de casa e 90% votaram em Harry Reid.

Mas o filho de Reid não escapou. Rory Reid, candidato democrata a governador, foi afogado por Brian Sandoval, eleito governador. Graças ao nome e ao apoio latino. Parte das contradições e ironias desta eleição.

Na Califórnia, 86% dos votos latinos salvaram a candidata democrata ao Senado, Barbara Boxer. Se estes dois candidatos tivessem perdido, é muito provável que os republicanos tivessem conquistado o Senado, ou pelo menos empatado no número de senadores, 50 a 50.

Outro vitorioso com o voto latino foi o candidato a governador da Califórnia, Jerry Brown, que derrotou a bilionária Meg Whitman. Ela liderou nas pesquisas até a denúncia da empregada latina, ilegalmente no país e demitida depois de nove anos com a família. A bilionária disse que ela deveria ser deportada e a crueldade não foi perdoada pelos eleitores.

Os latinos salvaram liberais, mas também elegeram conservadores. Entre eles, a republicana Susana Martinez, governadora do Novo México, a primeira latina, democrata ou republicana, a governar um Estado americano.

Durante treze anos, foi promotora pública, conservadora, durona e ganhou várias eleições num distrito eleitoral onde há três democratas para cada republicano. Susana recebeu o endosso do Tea Party, mas nunca se promoveu como candidata do movimento, nem participou do debate dos candidatos teapartistas.

Outra republicana latina vitoriosa foi Jaime Herrera (estranho, mas é Jaime mesmo), deputada pelo terceiro distrito do Estado de Washington. Durante a campanha preferiu não se identificar com suas origens. Nem sempre vale a pena jogar a carta latina, mas, em Idaho, o portorriquenho Raul Labrador derrotou o democrata Walt Minnick, que apelou para acusações racistas e acabou punido pelo eleitorado.

O latino mais promissor da safra é Marco Rubio, de origem cubana, eleito senador na Flórida. Republicano, conservador, jovem, com eloquência no estilo Obama, já é visto como possível nome para vice na chapa de 2012. Já liderava com boa margem quando recebeu o apoio não solicitado de Sarah Palin e do Tea Party. Marco não recusou o apoio, mas não vestiu o manto nem promoveu o movimento.

Estas contradições embutidas nas eleições de terça-feira não diminuem a grandeza do tsunami republicano, não só em Washington, mas, não menos monumental, nas governanças, legislaturas estaduais e câmaras municipais. O país se avermelhou (a cor do Partido Republicano é o vermelho).

Foi uma vitória do Tea Party ou uma derrota de Barack Obama? Dos 59 candidatos apoiados por Sarah Palin, 32 foram eleitos, mas metade deles teria ganhado com ou sem apoio teapartista e os republicanos poderiam ter empatado ou até ganhado no Senado, não fossem as derrotas de duas candidatas desastrosas, politicamente primárias, criações do movimento: Christine O'Donnell e Sharon Angle.

Qual o cenário? Sombrio. Dois anos de empenho republicano - e resistência democrata - para desfazer as reformas na saúde e nas finanças. Bancos, Wall Street e seguradoras, muitos deles salvos pelos estímulos de Bush e Obama, investiram milhões em candidatos conservadores e o investimento compensou. A brutal maioria republicana pode contornar os vetos de Obama obstruindo verbas para implementar as reformas.

Eu dou a mão à palmatória. Disse e escrevi que a vitória republicana seria menor. As pesquisas não previram este tsunami. Nem a marola latina que impediu a perda do Senado.

Os republicanos ainda não oferecem nada além da velha receita: redução de impostos para os ricos, cortes nos gastos numa economia que precisa de empregos, menos investimentos em educação, saúde e tecnologia num país que precisa das três.

A maior das ironias não é nova: os republicanos foram eleitos com dinheiro das grandes empresas para proteger o país dos interesses das grandes empresas.