O Congresso Brasileiro Exterior

Ivan Lessa em ilustração de Baptistão

Eleição é feito erisipela, pega, é contagiosa. Na terça-feira, foram os americanos às urnas e lá exerceram seu sagrado dever cívico, sem obrigatoriedade e livre de ameaças de prisão ou multa. Eleições meio mixurucas. Nem mudaram de presidente.

Ou, pensando bem, mais ou menos feito a gente: mudaram. Mas só um tiquinho, que é pra não pegar mal, nem dar na vista. Não dá para se dizer que Lula exercerá as funções de poder por trás do trono. Na verdade, é um trono feito aquele banco que chamam de “banco de namorados”: dá para dois.

Tanto é que, menos de uma semana após a eleição de Dona Dilma, “sô” Lula, entusiasmado, armava e desarmava o gabinete para 2011. Dona Dilma descansava, depois de tanto fazer aquele gesto de V da Vitória celebrizado pelo notório presidente Nixon. Vem cá, não tinha ninguém que chegasse à presidente ou presidenta (ela não só é a primeira mulher a liderar o país, mas a primeira pessoa a ter o cargo em dois gêneros) e avisasse que a nixoniana pose pegava mal?

Eleições agora onde e envolvendo quem?

Sufrágio nosso mesmo. Pegamos gosto. Urna indevassável é conosco. O equivalente, por assim dizer, à popularidade das duplas caipiras.

Fiquei sabendo, via o Consulado-Geral do Brasil em Londres, que, agora, eu posso, segundo eles, “eleger um representante de Brasileiros no Exterior”. Trata-se do Conselho de Representantes de Brasileiros no Exterior, que tem por sigla, feito um partido perdido em algum Sambódromo, CRBE.

O Conselho foi criado na II Conferência das Comunidades Brasileiras no Exterior, realizado no Rio de Janeiro, de 14 a 16 de outubro de 2009. Apesar de que, em minha modesta opinião, deveria, para justificar o nome, ter se realizado no exterior. Claro.

O CRBE já apagou a primeira velinha e tem o objetivo expresso de “possibilitar que os brasileiros e brasileiras que vivem no exterior possam indicar representantes para dialogar diretamente com as autoridades encarregadas da formulação das políticas de seu interesse.”

Nesse ponto, eu paro e virgulo: a frase não está clara. Que autoridades? As nossas? As do exterior? Professor Pasquale Cipro Neto, vossas luzes, por favor.

O comunicado informa que há diversas candidaturas, inclusive do Reino Unido. Só não informa como se faz para ser candidato. Eu gostaria tanto de deixar a cabine indevassável fazendo o V da Vitória nixoniano. Um sonho meio caduco, bem sei, mas com sonho, e voto, não se brinca.

Num segundo parágrafo, o comunicado informa que as eleições para o CRBE serão realizadas no período de 1 a 9 de novembro de 2010. Está na hora, pois, conterrâneos exteriorizados. Voai, voai!

Tudo indica que o voto será eletrônico e realizado “num sistema especialmente concebido para esse fim”. Não poupamos despesas quando se trata de sufrágio ligeiramente universal. Os brasileiros poderão votar por meio do Portal “Brasileiros no Mundo” (www.brasileirosnomundo), onde também são obtidas maiores informações relativas à democrática iniciativa.

Atenção! O cadastro como eleitor será simultâneo. Para votar, o brasileiro na diáspora precisará obrigatoriamente (o comunicado é quem sublinha) informar: a) cidade e país, com campo facultativo para estado/província; b) nome completo; c) correio eletrônico; d) um documento de identidade (passaporte brasileiro, CPF ou título de eleitor no exterior); e e) se é matriculado ou não no Consulado e, se for o caso, o número da matrícula.

Por fim, você, eu, ele, nós, teremos de declarar, sob as penas da lei (aí considerem a frase alegoricamente por mim sublinhada), ser brasileiro, maior de dezesseis anos (16) e radicado no exterior.

Esse detalhe é muito importante: ser radicado no exterior. A clareza de estilo é virtude tanto entre os analfabetos eleitores ou meros candidatos.

Sucintamente, o comunicado, em negrito, convida exclamativamente. Ou informa, exige, ameaça, por aí – a leitura é vossa:

Participe!