Reflexo da crise, guerra cambial esconde problemas nos principais países

Notas de yuan
Image caption Países pressionam a China a valorizar o yuan

O perigo de uma guerra cambial, que deverá dominar as discussões do G20 a partir desta quinta-feira, em Seul, é reflexo de problemas nas principais economias do mundo, sobretudo nos Estados Unidos.

Passados dois anos do auge da turbulência financeira, alguns países ainda sofrem com as consequências da crise, cada um à sua maneira. Desemprego nos Estados Unidos, inflação na China e déficit fiscal na Europa são alguns exemplos da “ressaca”.

Sem conseguir reverter a situação de forma mais rápida, alguns governos acabam se valendo da desvalorização de suas moedas, estimulando assim a economia local e as exportações.

O resultado, no entanto, pode ser um grave efeito dominó, com diversas economias adotando medidas restritivas sobre o fluxo de capitais para evitar a valorização de suas próprias moedas.

Saiba quais são os problemas econômicos nos principais países que explicam a guerra cambial.

Estados Unidos

Apesar das medidas de peso adotadas pelo governo americano, como um pacote de estímulo econômico de quase US$ 800 bilhões e de reduções consecutivas nas taxas de juros, a economia dos Estados Unidos ainda patina.

O desemprego é apontado como o principal reflexo da morosidade no consumo e na produção: 9,6% da população economicamente ativa está sem trabalho.

Como os juros básicos já estão praticamente zerados, o governo americano tem poucos mecanismos disponíveis para “baratear” o dinheiro e levar a população às compras.

Um desses mecanismos é a colocação de mais dólares em circulação, por meio da recompra de títulos públicos. Nesta quarta-feira, o banco central americano anunciou a recompra de US$ 600 bilhões desses papéis. Na prática, a medida tem a mesma função de uma redução nos juros.

Em outras palavras, o governo americano quer mais inflação, ou seja, quer que as pessoas comprem e que os preços subam. Uma tarefa difícil, segundo economistas, já que os americanos, preocupados com o desemprego, estão mais interessados em vender o que têm.

China

Considerada a “outra moeda” da economia americana, a China tende a apresentar uma situação econômica que muitos analistas definem como uma “imagem invertida” do que ocorre nos Estados Unidos.

Não é à toa que a grande preocupação na China, hoje, é a inflação. Ou seja, enquanto o governo americano adota medidas que estimulam a alta dos preços, Pequim busca formas de aplacar esse problema.

Em outubro, o banco central chinês surpreendeu os mercados ao anunciar a primeira elevação da taxa de juros nos últimos três anos.

Uma das fontes da pressão inflacionária na China tem sido o mercado imobiliário. Após dois anos de estímulos para evitar o pior da crise no país, agora Pequim tem de lidar com uma possível bolha nesse mercado, com grande procura apesar da alta de preços dos imóveis.

Ao contrário dos Estados Unidos, que não conseguem fazer sua economia crescer de forma mais rápida, os chineses deverão crescer a uma taxa anual de 9%. No país asiático, não é a falta de consumo que preocupa, mas sim um possível excesso.

Os dois países também têm encontrado dificuldades de se entender na questão cambial. O governo americano acusa Pequim de desvalorizar artificialmente o yuan, prejudicando as exportações americanas.

O governo chinês se defende com o argumento de que a valorização de sua moeda seria um “desastre para a China e para o mundo”, com o fechamento de fábricas locais causando um “forte desequilíbrio” para todos.

Europa

Entre os países europeus, um dos principais efeitos da crise financeira tem sido um alto déficit público.

Depois de dois anos com gastos acima da média na tentativa de recuperar suas economias da turbulência, os europeus agora têm de lidar com caixas no vermelho.

Na Grã-Bretanha, por exemplo, a diferença entre o que o governo gasta e o que arrecada chega a 11% do Produto Interno Bruto (PIB).

O rombo fiscal também tem sido um problema para Grécia (14%), Irlanda (14%), Espanha (11%) e França (8%).

O problema não está apenas no setor público: o setor privado também sofre para voltar ao patamar de expansão pré-crise. Com os principais mercados do mundo ainda em recuperação, as empresas europeias encontram dificuldade para retomar suas exportações.

Nesse contexto, uma maior valorização da moeda chinesa também interessa à União Europeia, que poderia assim estimular a venda de seus produtos no país asiático. Por isso a desvalorização do yuan, promovida por Pequim, também tem sido alvo de críticas das autoridades europeias.

Mas não é só a China que vem incomodando a União Europeia. A desvalorização do dólar, estimulada pelo governo americano, também prejudica as contas externas dos países da região e já passou a ser alvo de críticas de alguns países europeus, como a Alemanha.

Brasil

A valorização do real frente ao dólar pode ser apontada como um dos principais rescaldos da crise financeira no Brasil.

Com um real mais valorizado, os produtos brasileiros perdem competitividade no mercado internacional. No 3º trimestre deste ano, o saldo da balança comercial brasileira ficou 32% menor do que no mesmo período de 2009.

Na prática, o país sofre as consequências de políticas adotadas principalmente nos Estados Unidos e na China.

A desvalorização do dólar promovida pelo governo americano reduz o valor dos ativos nos Estados Unidos, forçando o investidor estrangeiro a buscar retornos maiores em países emergentes.

Já a China, apesar de ser um mercado emergente e continuar atraindo investidores, mantém sua moeda atrelada ao dólar, evitando assim uma valorização “natural” do yuan.

O governo brasileiro vem adotando medidas que tendem a diminuir a entrada de dólares no país, como o aumento do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) que incide sobre o capital estrangeiro – mas o dólar continua caindo frente ao real.

Diversos outros países, como a Tailândia, o Japão e a Coreia do Sul, já anunciaram medidas semelhantes, o que levou o ministro da Fazenda, Guido Mantega, a falar da iminência de uma guerra cambial.

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