Mesmo com 'dois presidentes’, Brasil chega enfraquecido ao G20, dizem analistas

Dilma e Lula. Foto: Reuters
Image caption Lula disse que faltou em Toronto para cuidar do auxílio a vítimas de enchentes no Nordeste

Com Dilma Rousseff ao lado de Luiz Inácio Lula da Silva durante a reunião do G20 (o grupo das 20 maiores economias do planeta), que acontece nestas quinta e sexta-feira em Seul, na Coreia do Sul, o Brasil terá a situação inédita de enviar dois líderes a um encontro multilateral de cúpula.

Mas mesmo com a participação dobrada, com a presidente eleita e o presidente em fim de mandato, o Brasil chega à reunião de Seul com a posição no grupo enfraquecida, de acordo com analistas ouvidos pela BBC Brasil.

Uma das razões para isso, segundo eles, é a ausência de Lula na última reunião de cúpula do grupo, em Toronto, em junho, e a do ministro da Fazenda, Guido Mantega, e do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, à reunião ministerial preparatória para a cúpula, realizada no mês passado em Gyeongju, na Coreia do Sul.

Para John Kirton, professor de ciência política da Universidade de Toronto e diretor do G8 Research Group e do G20 Research Group, que acompanham a atividade dos dois grupos, as ausências nas duas reuniões "foram lidas por muitos como um boicote do Brasil ao G20".

"A ausência de Lula foi a primeira de um líder do G20 a uma cúpula. Se eles não estão lá para colocar a posição brasileira, isso enfraquece a posição do país. Funcionários de baixo escalão não têm a mesma força", afirmou ele à BBC Brasil.

Lula justificou sua ausência à reunião de cúpula de Toronto alegando que tinha que permanecer no Brasil para acompanhar o auxílio às vítimas das enchentes que castigavam o Nordeste do país na ocasião.

Mantega e Meirelles disseram que não podiam comparecer à reunião ministerial de Gyeongju, no mês passado, por causa da reta final da eleição presidencial e do acompanhamento das medidas tomadas para elevar a taxação dos investimentos estrangeiros no país.

"Lula não era apenas um líder qualquer do G20, era a estrela do show. Sua ausência foi bastante sentida em Toronto, e a desculpa que ele deu foi pouco convincente, assim como foram pouco convincentes as desculpas de Mantega e Meirelles para não irem à reunião ministerial", afirmou.

'Cultuadores do G20'

Em entrevista à BBC Brasil, Mantega negou que o Brasil estivesse boicotando o G20 ou insatisfeito com as discussões no grupo.

"Não houve nenhuma intenção de boicote, muito pelo contrário. Nós somos os principais cultuadores do G20, desde o primeiro momento defendemos o grupo. Quando o G20 ainda não tinha reuniões de líderes, eu como presidente do G20 propus transformá-lo num grupo de líderes", afirmou Mantega.

"Há problemas internos do Brasil que tinham prioridade naquele momento (das reuniões), mas não deixamos de estar presentes de uma forma ou de outra na discussão, trazendo nossas posições nos encontros", disse.

Segundo o ministro, o Brasil continuou participando das discussões da mesma forma, mesmo com as ausências.

"Na reunião de Toronto, eu estive lá representando o presidente Lula e sentei à mesa com os líderes, para colocar nossa posição da mesma maneira", afirmou.

Segundo ele, antes da reunião ministerial do mês passado, ele enviou uma carta aos demais ministros das Finanças explicitando a posição do Brasil, que foi representado pelo secretário de Assuntos Internacionais do Ministério da Fazenda, Marcos Galvão, e pelo diretor da Área Internacional do BC, Luiz Pereira.

Mantega afirmou que ficou em contato permanente com Galvão durante a reunião. "Ele influiu nas discussões e nas posições que foram tomadas", afirmou Mantega.

"Estávamos presentes também pela mídia internacional. Continuei me manifestando, colocando a posição do Brasil", disse.

Sem protagonismo

O economista Ignacio Angeloni, editor do G20 Monitor, publicação do instituto de pesquisas belga Bruegel, também diz que a posição do Brasil na cúpula de Seul está enfraquecida e que o país não deve ser protagonista nas discussões em relação ao principal tema da agenda, a chamada "guerra cambial", apesar de Mantega ter sido a primeira figura internacional de peso a usar o termo.

Para Angeloni, o Brasil não está entre os mais afetados pelas desvalorizações de moedas promovidas por alguns países para beneficiar suas exportações. Os Estados Unidos acusam a China de manter sua moeda, o yuan, artificialmente desvalorizada. O yuan tem o câmbio praticamente fixo, atrelado ao dólar.

Os Estados Unidos, porém, passaram a ser o alvo dos ataques após o anúncio do Fed (o Banco Central americano) de injetar US$ 600 bilhões na economia local, o que pode aumentar o fluxo de divisas para os países em desenvolvimento, levando à valorização de suas moedas.

Para Angeloni, porém, apesar do possível aumento do fluxo de investimentos no Brasil com a decisão do Fed, a valorização do real acontece principalmente por outros motivos, como as taxas de juros altas no país, que servem de atração para o capital estrangeiro.

"Espero que o Brasil participe da discussão, mas não vejo o país como protagonista", disse.

Proposta brasileira

Os analistas também consideram que a proposta brasileira para a criação de um índice do FMI para identificar manipulações cambiais e determinar eventuais punições aos países tem pouquíssimas chances de ser aprovada durante a cúpula do G20.

"Sempre apreciei a habilidade do ministro Mantega, italiano como eu, para conseguir costurar acordos. Mas não vejo muita possibilidade da aprovação da proposta brasileira", afirmou Angeloni.

"O FMI tem tentado há muito tempo colocar em prática mecanismos de controle, mas sem sucesso", disse.

Para John Kirton, a aprovação da proposta brasileira significaria colocar o FMI na condição de xerife, "apontando o dedo para os países, com a China na primeira linha de ataque como manipuladora do câmbio".

"Isso também obrigaria que o Congresso dos Estados Unidos e o Tesouro americano tivessem que identificar a China como manipuladora do câmbio e tomar medidas retaliatórias, o que eles têm evitado fazer até agora", disse.

Para ele, a proposta aprovada na reunião ministerial de Gyeongju, que deve ser referendada pelos líderes nesta semana, indicando faixas apropriadas para superávits e déficits comerciais com processos de discussão caso essas faixas sejam superadas por algum país, é mais sensata e menos polêmica.

"É uma posição muito diferente de dizer: 'Você é culpado, vou puni-lo", afirmou.

Para John Kirton, que rejeita a expressão "guerra cambial", "a contribuição brasileira foi apenas uma expressão chamativa e apocalíptica, que pegou nas manchetes da mídia, apesar de não descrever a realidade existente ou a que vai emergir (da reunião)".

Fim de governo

Outra questão que preocupa os analistas em relação à participação do Brasil na cúpula é o fim do mandato do presidente Lula.

Apesar de a eleição de Dilma Rousseff ter sido vista como uma provável continuidade das linhas adotadas por Lula, eles dizem que ainda há dúvidas sobre possíveis mudanças na política econômica brasileira com o novo governo, que toma posse em janeiro.

"Eu diria que o Brasil está em uma posição enfraquecida com Lula de saída e a necessidade do novo governo de se afirmar", afirmou Alan Alexandroff, co-diretor do G20 Research Group, da Universidade de Toronto.

Dilma, que participa da reunião de cúpula como convidada, deve acompanhar a agenda de Lula durante o encontro, mas não deverá ter uma participação ativa durante a reunião, reservada apenas aos chefes de Estado ou de Governo em exercício.

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