Tropas veem ‘componente político’ em protestos contra cólera no Haiti

Protesto em Porto Príncipe
Image caption População haitiana quer a retirada do país de soldados do Nepal

As manifestações contra a epidemia de cólera no Haiti, que resultaram na morte de ao menos um civil durante confronto com militares na segunda-feira, podem estar sendo estimuladas por “componentes políticos”, na avaliação de integrantes da missão de paz das Nações Unidas (Minustah).

“Estamos a pouco menos de duas semanas das eleições. É natural que os ânimos estejam acirrados também pela questão política”, diz o major Akira Torigoe, brasileiro que é oficial de informação pública das forças militares da missão.

Os haitianos vão às urnas no dia 28 de novembro para escolher diretamente um presidente e novos parlamentares.

As tropas militares, que se preparavam para garantir a segurança na votação, encontram-se agora envolvidas em outra função: lidar com uma população abalada por uma epidemia de cólera, que já deixou mais de mil mortos, segundo estimativas do Ministério da Saúde.

Leia também na BBC Brasil: Epidemia de cólera já deixa mais de mil mortos no Haiti

Nepal

O clima ficou ainda mais tenso depois de revelado que o tipo da doença que vem se espalhando pelo Haiti é o mesmo existente no Nepal.

Muitos haitianos passaram a acusar as tropas nepalesas, que também integram a missão de paz, de terem trazido a doença ao país.

Nos protestos em Cap Haitien, norte do país, centenas de pessoas jogaram pedras nos soldados, incendiaram barricadas e uma estação de polícia. Além da morte de um civil, o confronto deixou ainda seis militares feridos.

Para o major Torigoe, a revolta dos haitianos não afetou a legitimidade da missão, que continua “sendo respeitada” pela população.

“Eles (haitianos) têm pedido a retirada das tropas do Nepal do país, mas essa é uma decisão que não cabe aos militares, e sim às Nações Unidas. Acredito que a situação será avaliada nos próximos dias”, diz o oficial da Minustah.

Além de ter o maior efetivo militar no Haiti, com 2,2 mil integrantes, o Brasil está à frente da missão desde que ela foi criada, em 2004.

Ainda de acordo com o major Torigoe, o clima de insatisfação “não é generalizado”.

“Foram apenas duas manifestações. E a essa altura fica difícil saber o que é insatisfação com a doença e o que é reflexo da aproximação das eleições”, diz.

Eleições

O pleito estava inicialmente marcado para fevereiro, mas as autoridades decidiram adiar o processo em função da instabilidade no país com o terremoto de janeiro deste ano, que deixou mais de 200 mil mortos.

O Haiti enfrenta o desafio de escolher o sucessor do presidente René Preval com um mínimo de estabilidade política, após anos de sucessivos golpes de estado.

Além disso, as diversas frentes políticas que atuam no país caribenho exercem forte influência sobre determinados líderes comunitários, o que, para alguns militares, pode estar “incendiando” o clima no Haiti.

“O ambiente político no Haiti é muito mais complexo do que se imagina. E, aliado a isso, temos um país devastado por um terremoto e, de certa forma, mais exposto à comunidade internacional. Há muita coisa em jogo”, diz um integrante das tropas brasileiras.

Segundo pesquisas de intenção de voto, a oposicionista de centro-esquerda Mirlande Manigat está na liderança, seguido pelo engenheiro Jude Celestin, candidato apoiado pelo atual presidente.

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