De repente, um livro

Ivan Lessa em ilustração de Baptistão

O radialista Benjamim Wright, que nos deu a famosa frase “o futebol é uma caixinha de surpresas”, bem que poderia ter estendido o dito antológico de forma a incluir também os livros.

A bem dizer, alguns livros. Com esse frio lá fora rugindo e estes pulmões aqui dentro bufando, passei um fim-de-semana fazendo o que deveria ter feito há séculos. Terminar um livro que, mesmo sendo uma caixinha de surpresas, ou, para ser mais preciso, um caixotão de surpresas, nunca terminei. Todo mundo tem dessas. Consolo-me a mim mesmo já que não tenho ninguém mais que o faça.

Convenhamos, mesmo nesta década do século que corre, há dias em que não dá vontade nem de ver televisão, nem de dar umas braçadas (para logo perder o fôlego) na internet. Sou franco e meio canalha. A verdade é que botei para gravar as coisas que normalmente eu veria na TV. Seguro morreu de velho. Logo depois, irei eu. Mas ao livro, ao livro, gritam-me todas as estantes lá de casa.

Há mais de uma década que comprei um romance tido como tão cult quanto film noir do Jacques Tourneur. La Disparation, de 1969, do francês George Perec, desaparecido desta terra em 1982. Perec era cultíssimo, em todos os sentidos, e fazia questão de estabelecer jogos com o leitor.

Fazia parte do grupo Oulipo, que se dedicava a jogos verbais e literários, dos quais Perec usou e abusou, sempre com grande classe. No livro em questão, durante 300 páginas Perec não emprega uma única vez a letra mais comum da língua francesa, o E.

A trama envolve, como não poderia deixar de ser, nas mãos de um mestre, um desaparecimento, de forma a rimar com o artifício, na verdade um lipograma: um número de indivíduos em busca de um companheiro desaparecido, Anton Vowl (olha um joguinho de palavras aí) e pode ser lido mais ou menos como uma paródia de um noir ou de ficção de horror, caindo de pequenos truques estilísticos, dribles narrativos e uma (só agora vim a tomar conhecimento) conclusão terrível.

Uma obra de virtuoso que, agora, décadas depois, venho de ficar ruminando-a. Pode ser – quem sabe? – sobre o Holocausto, sobre aqueles que nele sucumbiram ou desapareceram.

Agora, sim. Adentro a net em busca de maiores detalhes. Onde andei eu estes anos todos que não dei bola para acabar o romance que, juro que é verdade, eu estava gostando. Deve ter sido alguma inovação tecnológica da época, talvez o CD ou mesmo o PC. De qualquer forma, fui, e sou, uma besta.

Lamento que o romance não tenha sido traduzido para o português. Era um desafio. Teríamos que tacar lá 300 páginas sem um único A, que é nossa letra mais usada. O título eu já o tenho e dou de graça para quem topar a dura empreitada: O Sumiço. Que não é de se jogar fora.

La Disparation foi traduzido para o inglês por Gilbert Adair e recebeu o bem bolado título de A Void (um vácuo, pois não?). Não bastasse, mais dois escritores deram as caras e foram nessa: Ian Monk, com A Vanishing, e John Lee, que preferiu Vanish'd. Um, o do Adair, é bom, três como diz o ditado, é demais.

Nada posso opinar sobre as traduções em espanhol, turco, sueco e holandês. Sei apenas que, no idioma de Cervantes, em 1997, ganhou o nome de El Secuestro. No de Goethe, em 1986, Anton Voyls Fortgang. Cemal Yardimer, agora mesmo, em 2006, batizou em turco de Kaybolus, sendo que esse S tem aquele rabinho levantino que vocês manjam.

E confesso o que está óbvio: terminada a leitura, fui xeretar esses dados aí em cima na net. Espero que dele façam bom proveito, distribuam Jabutis, os prêmios que quiserem para quem botar mãos à obra e apareça na praça editorial com O Sumiço.

Não, não quero comissão pela sugestão de título. Quero apenas vê-lo traduzido e publicado. Vale o esforço. De traduzir e de ler, mesmo com anos de atraso.