Desempregado, brasileiro vê 'sonho português' ruir em um ano e meio

Paulo Sobrinho (foto: Jair Rattner / BBC Brasil)
Image caption Paulo Sobrinho está sem trabalho fixo em Portugal desde maio

Em março de 2009, Paulo Sobrinho, de 38 anos, deixou Olinda, em Pernambuco, para tentar a sorte em Portugal. Um ano e meio depois, prepara-se para deixar tudo para trás novamente e retornar ao Brasil, após uma experiência frustrada.

"Vir para Portugal foi o maior erro que eu fiz. Estou longe de meus pais, do meu filho de 9 anos. No Brasil, eu nunca passei fome, aqui passei fome", afirma Sobrinho, que trabalhava em Olinda como autônomo, consertando faróis de automóveis.

O caso de Paulo Sobrinho é mais um exemplo de uma tendência estabelecida após a crise econômica global.

Um relatório sobre as tendências de migração em 2010, encomendado pela BBC, indicou que a crise econômica global forçou uma "pausa" no fluxo de pessoas para os países ricos.

Leia mais na BBC Brasil sobre o relatório

A Organização Internacional de Migrações (OIM), agência ligada à ONU que mantém um programa de ajuda para imigrantes que querem retornar aos seus países, diz que de janeiro a agosto deste ano ajudou 1.177 pessoas em Portugal, 84% dos quais brasileiros.

No ano passado inteiro, 1.011 pessoas receberam ajuda da OIM em Portugal para retornar aos seus países, 78% dos quais brasileiros.

Documentos

Paulo Sobrinho, que espera a ajuda da OIM, conta que trabalhou em Portugal servindo mesas e na construção civil, mas que está parado desde maio.

"Trabalho até tem, mas eles pedem os documentos para ver se estou legalizado. Sem contrato, eu não consigo legalizar, mas, sem legalizar, eu não tenho contrato", afirma.

"Vim atrás de dois amigos de infância que tinham aberto um bar e tinham se dado bem", conta o brasileiro. "Vendi um carro e vim, achando que ia poder ajeitar a vidinha do meu filho."

Atualmente, ele está sem pagar sua parte do aluguel de um quarto em Lisboa – 180 euros mensais (cerca de R$ 420). "De vez em quando, eu faço uma mudança, mas o dinheiro é só para comida", diz.

Sobrinho sofre as consequências psicológicas da situação. "Não durmo, tenho pesadelos, acordo de madrugada com falta de ar", afirma. "Nunca passei isto na minha vida."

Programa

O programa da OIM para ajuda ao retorno é financiado em 75% pela União Europeia e em 25% pelo governo local.

As normas da OIM preveem que uma pessoa só pode se beneficiar uma vez da ajuda para retornar. Segundo a legislação portuguesa, uma pessoa que obtém a ajuda não pode retornar a Portugal em um prazo de três anos, a não ser que devolva o valor pago pela passagem.

"É uma resposta de último recurso para gente que não tem meios para voltar ao seu país", diz Marta Bronzin, diretora da OIM em Portugal.

"São pessoas que trabalham em setores mais expostos à instabilidade gerada pela crise econômica, como construção civil, bares, restaurantes, comércio e serviços", acrescenta.

Para retornar, é necessário ir à sede da OIM ou a uma das instituições parceiras espalhadas pelo país e se inscrever no programa. São preenchidos formulários e, depois de aprovado o pedido, é necessário esperar a disponibilidade de lugar no avião.

"Neste momento, a espera está em 90 dias, mas, com a época baixa, o prazo deve diminuir", afirma Marta.

Perfil

Segundo a representante da OIM, com a atual crise, o perfil dos brasileiros que pedem para voltar mudou.

Antes, eram principalmente pessoas que estavam em Portugal havia menos de quatro anos, sem estarem legalizados, normalmente com pedidos individuais – ou de solteiros ou que tinham deixado a família no Brasil.

Agora, passam a ser brasileiros com mais de cinco anos no país, com autorização de residência em Portugal e com maior quantidade de grupos familiares.

Os dados da OIM revelam o perfil dos brasileiros que até junho deste ano pediram passagem de volta porque não tinham condições de se manter em Portugal: entre 30 e 35 anos de idade, 54% homens, 57% com pedidos individuais e 54% vivendo há menos de cinco anos em Portugal.

Faculdade

Mesmo com um emprego, a mineira Valmira Sebastiana de Sousa, de Caratinga, pediu para voltar com os dois filhos, um de 15 e uma de 5 anos.

"Estou trabalhando em um lar de idosos seis dias por semana. Ganho 500 euros por mês, o que não paga uma vida, não consigo manter os filhos", afirma.

Valmira, de 38 anos, está há seis em Portugal. Artista plástica no Brasil, quando chegou foi trabalhar como ajudante de cozinha em um restaurante em Lisboa. Há pouco mais de um ano e meio, ficou desempregada.

"Aproveitei o que recebia do fundo de desemprego para concluir o ensino médio, melhorar meu inglês e tirar a carteira de motorista", conta. "Quando chegar ao Brasil, quero fazer faculdade na cidade de onde eu sou, estudar administração."

Além do valor da passagem, pouco mais de 10% das pessoas que retornam recebem também um apoio para recomeçar a vida no país. Em 2009, foram 41 casos - a ajuda pode chegar, no máximo, a 1,1 mil euros por pessoa.

"Podem abrir uma lanchonete, um bar, um cabeleireiro, ou fazer um curso de formação", relata a brasileira Isabela Salim, da OIM, responsável por acompanhar os que voltam com apoio para a reintegração.

Isabela diz que foi criada uma rede de parceiros locais, ONGs que procuram ajudar no Brasil os que voltam a cumprir seus objetivos. "Dos 41 casos do ano passado, apenas de dois a gente não tem notícia", afirma.

No total, seis pediram apoio para cursos de formação profissional, e o resto, para abrir um negócio próprio. Para receber o apoio, é necessário saber claramente o que os interessados querem fazer no Brasil e, no caso de abrir uma microempresa, ter um plano de negócios.

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