Do público, para o público

Lucas Mendes em ilustração de Baptistão.

Você não deve confundir rádio estatal com rádio pública. Uma vive do seu dinheiro e a outra também, mas o da estatal sai na marra, do seu imposto. A pública é na base no amor. A gente paga porque gosta dela.

Minha amante de carro e casa é a NPR, National Public Radio, que neste ano faz 40 anos. Parabéns!

A rede tem 897 estações no país e uma audiência de 20 milhões de ouvintes. Três vezes por ano ela pede, implora, enche o saco durante uma semana por um dinheirinho da audiência. Há ouvintes que mandam o dinheiro na esperança de que a rádio cumpra a meta mais cedo e pare de implorar. Com US$ 75 você se torna "sócio" contribuinte e ganha um brinde.

Este ano, a rede está na alça da mira dos republicanos. Não é a primeira vez que tentam silenciar a voz da NPR e nem será a última. O novo ataque partiu do deputado Doug Lamborn, um conservador do Colorado que colocou a NPR na lista de cortes do movimento YouCut (Você corta), que incentiva os americanos a votar pela internet em programas ou gastos federais que gostariam que fossem eliminados.

A demagogia funcionou, a NPR foi campeã, mas a proposta foi rejeitada no Congresso.

Cá entre nós, a NPR é do público para o público, mas produzida e estrelada por uma maioria liberal brilhante, uma voz um pouco à esquerda do centro e uma programação que lembra a da BBC. De nove às dez da manha, em Nova York, na FM (tem também em AM), a estação tem uma hora de BBC. De orelhada, como ouvinte, eu diria que 80% é informação, com longas matérias e entrevistas. Os outros 20% são de música, entretenimento, humor informativo e debochado.

Um dos programas de maior sucesso da rede é Wait wait...don’t tell me, que eu gostaria de criar uma versão para a TV por assinatura no Brasil. Apresentado por um comediante conhecido, com ajuda de três outros participantes e uma audiência ao vivo, faz um quiz informativo, às vezes hilário, dos assuntos da semana.

Sábado de manhã, às dez, eu ouço Talk Radio, apresentado por dois irmãos já coroas que estudaram engenharia no Massachusetts Institute of Technology (MIT), abriam uma oficina e sabem tudo sobre automóveis, com um conhecimento da língua inglesa que vai dos tabloides a Shakespeare.

Dezenas de ouvintes ligam em busca de soluções para problemas com seus carros. Os irmãos respondem com engenharia, sacações e gargalhadas. No final, antes dos créditos, um deles aconselha “não dirija como meu irmão” e o outro responde “nem como o meu”. Na lista dos contribuintes do programa aparece a firma de advogados Dewey, Cheatem & Howe, que, trocado em miúdos, dá "Do we cheat them? and how!". Traduzido é "Nós enganamos eles? e como!".

Outro favorito é musical. Quatro horas no sábado e outras quatro no domingo, do meio-dia às 4. Jonathan Schwartz às vezes é meio pomposo, mas sabe tudo sobre a música americana que ele chama de clássica, de Gershwin e Cole Porter a Tom Jobim com recheio de jazz. De uma às duas é só Frank Sinatra. Quase toda música tem uma história sobre a letra e a composição. Precioso. Às vezes, dá vontade de dançar e eu danço. Sozinho também é bom.

Mas é no jornalismo que a NPR ganha do resto, rádio ou TV. Quando o complicado debate da reforma da saúde estava fervendo, a rede mandou seus repórteres para cinco países europeus - França, Holanda, Alemanha, Suíça e Grã-Bretanha - para examinar como funcionam os seus sistemas de saúde pública gratuita. O resultado mostrou não só sistemas que funcionam bem ou melhor do que o americano, como também por um custo muito menor.

A NPR também desafina. Recentemente demitiu um comentarista negro porque ele fez um comentário sobre muçulmanos que a direção considerou ofensivo. Levou uma surra merecida de todos os lados. Eu critiquei, mas mandei mais um dinheirinho.

Enquanto a imprensa escrita corta correspondentes domésticos e internacionais, a NPR cresce e contrata mais jornalistas. Você pode ouvi-la no Brasil, lê-la na internet e baixar podcasts de quase toda a programação no site www.npr.org.

Vai descobrir a vox populus inteligente, sana e bem humorada.

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