Egito: Oposição islâmica precisa de reformas para chegar ao poder, dizem analistas

Hosni Mubarak
Image caption Líder egípcio deve indicar filho para sua sucessão

A força opositora Irmandade Muçulmana precisa resolver suas divisões internas se quiser chegar ao poder no Egito, dizem especialistas ouvidos pela BBC Brasil.

Na opinião dos analistas, a Irmandade Muçulmana detém grande poder entre a camada da população de menor renda, mas falta maior penetração entre as classes mais altas e seculares do país, que temem sua agenda política mais religiosa.

O Egito vai às urnas neste domingo, para escolher candidatos para as 508 cadeiras no Parlamento (outras dez são preenchidas por apontados pelo presidente). Em 2005, a Irmandade conseguiu eleger 88 candidatos no Parlamento, uma vitória surpreendente.

O atual presidente, Hosni Mubarak, 82, tem problemas de saúde e ainda não confirmou se será candidato a um sexto mandato na eleição presidencial de 2011. Os egípcios especulam que ele pode indicar seu filho, Gamal Mubarak, para sua sucessão no comando do Partido Nacional Democrático (PND), o maior partido do país.

‘Solução’

A Irmandade Muçulmana, maior movimento islâmico do mundo, foi fundada em 1928, com o slogan “Islã é a solução”. O grupo quer estabelecer um Estado governado por leis islâmicas, entrando em conflito com a constituição secular do Egito.

O movimento está proibido de concorrer às eleições como um partido político (as leis egípcias proíbem partidos com políticas religiosas), o que obriga seus candidatos a concorrerem como independentes.

“A Irmandade ainda é a chave para que a oposição consiga que o Egito se transforme em uma real democracia. É o maior e mais bem organizado adversário ao presidente Mubarak e seu partido”, disse Amr al-Shoubaki, do Centro Al Ahram de Estudos Estratégicos no Cairo.

Mas al-Shoubaki aponta algumas divisões internas no partido, entre “moderados”, mais voltados ao secularismo, e “conservadores”, a favor de um Estado com leis islâmicas.

Nas eleições internas do partido, a ala moderada perdeu para os conservadores, que preferem uma maior ênfase nos trabalhos sociais e na religiosidade junto a seus seguidores.

“A Irmandade passa por ambiguidades internas, e isso ficou evidente quando membros influentes criticaram a decisão do partido de concorrer às eleições de domingo, contrariando um clamor por um boicote”, disse ele.

Vários aliados importantes em outros partidos da oposição criticaram duramente a Irmandade, inclusive chamando a decisão de “traição”.

“A Irmandade conseguiu sobreviver durante décadas, apesar da repressão do governo, e continuará a existir após Mubarak. Mas ninguém sabe, no entanto, para que direção caminha a organização.”

Alguns dos jornais independentes no Egito também criticaram duramente a legenda, acusando-a de “boicotar” a oposição por interesses próprios.

“O grupo precisa manter uma margem de parlamentares, mesmo que possa ser pequena, para ter uma presença e satisfazer sua militância. É uma decisão por uma sobrevivência”, completou al-Shoubaki.

Em um comunicado à imprensa, a liderança do movimento negou que estivesse agindo de acordo com o momento e enfatizou que suas ações eram guiadas por um consenso entre seus membros.

Irmandade no poder

Apesar do prestígio, analistas acreditam que o partido deverá perder muitas cadeiras devido à falta de confiança da população no quanto o grupo islâmico poderá trazer reais mudanças no país.

O professor e cientista político Hamid Ghazali, da Universidade do Cairo, que foi conselheiro de um antigo líder da Irmandade, acredita que o grupo ainda não está preparado para o poder, pois passa por uma mudança rumo ao que ele chama de “Islamismo liberal”.

Os reformistas dentro do partido querem modernizar a Irmandade, tornando-a mais apta a assumir o poder caso tenha essa chance.

“Eles acreditam que os valores islâmicos, aliados a uma forma mais moderna de governança poderia dissipar as desconfianças da sociedade egípcia mais secular”, explicou Hamid.

Mas Amr al-Shoubaki, do Centro Al Ahram, não acredita que a Irmandade possa assumir o poder e resolver os problemas do país como um todo.

“Os reformistas no partido existem, mas foram excluídos das decisões. Além disso, o partido não tem uma visão clara em relação a assuntos como a participação da mulher e outros grupos religiosos em cargos no poder, homossexualidade, liberdades sexuais e o uso de drogas e álcool."

Para al-Shoubaki, a Irmandade percebeu que a autoridade final na sociedade egípcia vem do povo, e não da religião.

“O Egito é um país secular. E a Irmandade não terá condições de mudar isso sem passar por profundas reformas”, disse.

Mas ele ressalta que negar à Irmandade um papel no governo significará que uma grande parcela dos egípcios permanecerá sem voz.

“Os islamistas, apesar de tudo, são os únicos no mundo árabe que podem mobilizar as massas. Isso poderia ser usado a favor de um governo.”

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